quarta-feira, 5 de outubro de 2011

noite e meia

Meia-noite e a noite nem chegou ao meio de nada. O que me chega é o barulho do vento forte que sopra a janela entreaberta, e assovia uma canção que de maneira alguma me remete ao sono que não encontro. A minha carreira é longa. Já o caminho me parece too short. Não colocarei estrangeirismos entre aspas neste texto, não pratico bullying.

De manhã li um e-mail do meu irmão, que falava algo sobre o vento. Não esperava agora ouvir o vento conversar comigo. Não uso remédio tarja preta. Nunca precisei. Tarjas pretas me remetem ao pecado. Mulheres sem roupa. Homens sem roupa na TV que nunca dorme.

Meia noite e alguma coisa, e alguma coisa acontece, algo que meu coração nem desconfia. Nem pensa. Meu coração pensa devagar às vezes, às vezes ele também acelera e perde a razão. Mas lá fora alguma coisa acontece, que me inquieta a mente e a cama quente. (sim, pensei na música de Caetano) As árvores se lambem ao som e ritmo dos ventos. Nenhuma ave canta. Nenhum grilo, nem cigarra se atrevem. Estão todos a dormir, menos eu.

O vento que escapa e chega até meus pés é frio. O arrepio passeia pelo corpo encolhido debaixo do lençol branco e encardido. O lençol e o corpo também. São todos. Parágrafos curtos e frases curtas são pra causar efeito. Mas não causam. O vento sim, causa. Este, com extrema languidez, penetra o quarto e ávido por causar, ele vem e causa sem pestanejar, pois o vento não pestaneja.

Bêbado, mas não de sono, abro a janela da sala e a fumaça do cigarro sobe rumo ao infinito da noite. E se mistura com as nuvens. E a fumaça e a nuvem se aceitam como irmãs. Não há preconceito entre as coisas gasosas. Só entre as sólidas. O branquela magricelo e machão não aceita o moreno gordinho e afeminado, pois ele se acha dono da porra da verdade. As fumaças é que são verdadeiras, pois elas brincam com o vento.

Meia noite e muita coisa, um anjo dorme em minha cama, sem asas e sem culpa. Seus olhos fechados me remetem à existência do paraíso. Acho que é pra lá que todos vão quando não são branquelas, nem magricelos, nem morenos, nem gordinhos, nem machões, nem afeminados. É um lugar fantasticamente vazio, onde ninguém acha que tem bom senso nem razão. Somente o anjo que dorme em minha cama tem permissão de entrada e pode conversar com deus, que usa jaqueta de couro e bandana vermelha, ou será esse Axl Rose? Não sei.

É estranho ficar contando pintas pelo corpo às duas da manhã. 206. Penso no aluno que perdi e me crescem as incertezas. O orçamento. A hipoteca. O emprego medíocre. Sim, mesmo sabendo que você lerá. Os sonhos. Lembro-me do canto de Ossanha e procuro em meus arquivos. Não, é melhor deixar a Clara em paz a essa hora. O vento sopra mais forte, as janelas se descontrolam e as minhas mãos já doem.

Eu sou antidepressivo. As palavras me saem pelo avesso e rasgam a minha reputação. Onde estão as tarjas pretas quando mais precisamos? Quero esquecer meus pecados, mas sem ser trágico e piegas. Engole logo e põe pra dentro esse silêncio, pileque homérico no mundo (sim, agora Chico). Empurra goela abaixo com meio copo d’água e um pouco de pena de mim mesmo. Pronto! Agora posso dormir em paz e um quero-quero grita querendo mais. Mas a noite já se foi sem dizer adeus.


marcelozorzeto

5 comentários:

Anônimo disse...
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Camila Bianchi disse...

Sabe quando você acredita em algo ou em alguém e sabe que vai dar certo? Cedo ou tarde, mas vai.

Bjos poeta!

Marcelo Zorzeto disse...

Gostaria de saber quem é o covarde que não se identifica. Falar as coisas e ficar com o cu na mão, aí não dá...Se identifica! COVARDE!!!

Fabio Lombardi disse...

Eu sou de um tempo em que o comentário anônimo acrescentava. Questionava. Empurrava ao crescimento. Sou de um tempo onde o anonimato era um medo da polícia. Era medo de um poder maior que censurava e repreendia. Mas eu já não sei mais escrever em minha própria língua e os tempos são outros. São tempos de covardes que não são capazes de aceitar o único bem transformador que o ser humano tem: amor. E apesar de um desgosto com o tipo de anonimato acima, penso que ele vem to mesmo tipo de mal que sempre acometeu esse planeta: ignorância. E me dá uma pena. Quando eu tinha um blog em 2004 eu recebi o mesmo comentário. Anônimo. Uma pena que as pessoas não saibam mais o que ser humano significa: responsabilidade pelos atos. Uma pena. Que pena. Ela já não gosta mais de mim.... E eu vento tanto que já tenho me cansado. Esse ventar pelo mundo todo sempre me traz de volta ao ponto de partida... Onde quer que ele seja. Nesse caso numa estação de metro de uma Copenhague que já foi tão mágica. Mas apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza. Que pena...

Marcelo Zorzeto disse...

Brother, eu sou do tempo em que ser anônimo, era não se preocupar em ser identificado, pois havia um ideal maior: A LIBERDADE. Então as pessoas se juntavam, e a multidão de anônimos recebia um nome: LUTA. No mundo ideal as pessoas não vendem suas almas pra sobrevirem...mas que porra de mundo ideal é esse? Não tenho o menor medo de morrer. Nenhum medo.