sexta-feira, 30 de setembro de 2016

idades

sou caule e sou fruto, sou folha e também raiz. ao chegar o outono, uma parte de mim despenca suave como a morte tem que ser; mas é tempo de flores e eu as entrego à primavera como promessa de um breve renascimento. brinco, sou galhos entre os ventos e germino discreto entre o orvalho fresco de cada manhã. passo entre estações e trago guardado comigo, ainda entre dentes e dedos, toda terra que um dia à luz me trouxe. sou deus-mãe do que sou e sei, e guardião dessa verdade insana que é minha própria finitude. por isso tenho aprendido a prezar o tempo. respeito o passado do tempo. na floresta dos meus dias, chove torrencialmente. e as nuvens são como os olhos, que transbordam só pelo prazer de molhar o chão e assistir à semente se tornar vida.

marcelozorzeto

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

inútil sutura

um monumento em erupção
num momento de ruptura
assim que explode o coração
é mais que inútil a sutura.

marcelozorzeto

F

fartura
fatura
fratura

marcelozorzeto
Tudo que sei é que meu canto é bastante impreciso e muitas vezes não diz o que acho que penso, então me afundo em frases de areia movediça. Caótico.
Nasci pra ser santo de casa, eu sei. Sou o filho pródigo que não vai nunca voltar pra casa. Quebrando a profecia. Aí, quando eu menos espero, numa dessas esquinas, sou surpreendido por um afago verdadeiro e isso me traz de volta pra terra.
Muitas vezes o tiro que te pega de raspão, é mesmo que acerta em cheio quem passava atrás. E de quem é a sorte afinal? Então alguém te abraça, sorri e te pede pra cantar. Esse alguém apenas finge te ouvir. Apenas finge, pois sabe que eu desafino.

marcelozorzeto

poemas e lágrimas

O meu barco num mar em desalinho com o tempo. Mar que sempre me pede pra ficar. Levantar âncora, o relógio mostra por onde a saudade navega, e pq nunca volta ao mesmo porto. Adeus é pingo d'agua nos olhos que ficam ou se vão por aí. Lágrimas são reticências e cada semblante um poema já escrito...

marcelozorzeto

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

sobre erros e imperfeições

pra que algo fique de verdade, permaneça como esse quase-eterno ser que quase sempre queremos ser, deve-se partir muito antes do término, não dar tempo de se tornar perfeito. pasteu- rizado. higiênico. patriota. para ser perfeito, é necessário tomar a morte como metáfora... hoje vi um passarinho morto debaixo de uma árvore, ele dormia tão tranquilo, como se fosse eu na hora da raiva.


marcelozorzeto

domingo, 4 de setembro de 2016

infinitos

tudo que sei é que há dois infinitos que nos cercam, um antes e um depois, e no meio de tudo isso tem um troço chamado vida que é foda em todos os sentidos imagináveis.

marcelozorzeto

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

crônicos

com a pele já toda encharcada de esperança, ele atravessou o asfalto, entrou no bar e em pé no balcão, pediu uma dose dupla de paciência,
marcelozorzeto

terça-feira, 23 de agosto de 2016

poema fluxo

ontem, veio até mim uma palavra vaga trazida pela brisa da primeira manhã
úmida e leve como o amor de uma criança
a água, com seu som incurável de chuva a diluiu forte e breve
e fez dela correnteza
a caminho do mar
esse poema fluxo
leite de rio
leito de mãe.

marcelozorzeto

sábado, 20 de agosto de 2016

na avenida

pois não é que todo bom samba fala da minha tristeza
do meu gingado desafinado na avenida
e dos meus passos desencontrados em direção à apoteose.
lágrimas de cuíca e de cavaco, e sorrisos de pandeiro...

marcelozorzeto
(sobre ser perecível)
não sou eu que sigo com o tempo, é ele que segue comigo, enquanto pereço, enquanto ele ainda me achar necessário. sou eu que termino. o tempo, esse deus sereno, único amor infinito, nunca vai tem fim.

marcelozorzeto

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

tentou a desconstrução e desabou, virou entulho, escombros...
estão construindo um shopping center, ou uma igreja na área, ainda não sei
faltou estrutura para tanto e eu respeito isso.

marcelozorzeto

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

todo poema é

cuidado, todo poema é uma carta de autodestruição abre-se demais as portas da casa, escancara-se ao verbo vulnerabilidade da carne, dos ossos, do peito em demasia desprotege-se, vira alvo fácil todo poeta é um suicida-social escrita sobrevida, deixa-se morrer revela-se, cai do céu todo poema rompe um pacto onde a verdade não é permitida e atirar-se da janela é muito, muito provável todo poema é um arranha-céu de onde me atiro o corpo que cai é de verdade (a única verdade) é poesia em forma de vento. marcelozorzeto

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

poema estéril

eis aqui, poema estéril em terra infértil,
fogo morto em palavras, espalhado pelo chão
eis aqui, poema em cinzas, lama e morte,
saudade em chamas, um poema-oração
destempero em minha carne, noite espessa, 
azul-saudade, ser José ou ser João
eis aqui um não-poema fingindo ser de fato aquilo que não é
exposto ao escárnio, planta o ódio, e diz que ama em traição
pele em rugas, frases mortas, altar torto em minha anti-fé
escancara sua face, abre o peito e renasce em meu perdão.
marcelozorzeto

quinta-feira, 28 de julho de 2016

inventários

minhas muitas quase vitórias, não-sei-quantos-não-amores-perdidos, minhas infinitas semi-ausências ou semi-presenças e dezenas de verdades absolutas duvidosas e incuráveis apenas contemplam de longe a sombra do que não fui e minha improvável felicidade. aparando arestas. retirando as rebarbas
eu me sobro no meio de todo escombro e me assombro sempre no mesmo lugar.

marcelozorzeto

terça-feira, 26 de julho de 2016

confissões de um adolescente quarentão

querido diário
não dá pra se arrepender dos erros que você cometeu no passado, até porque a pessoa que você é hoje é 87,3% diferente daquele você de 10, 15 anos atrás... Ok, esqueçamos os remorsos e arrependimentos por isso, mas se daí você hoje, ainda comete os mesmos erros daquela época, aí meu irmão, você é um grande babaca... (falando por mim).

marcelozorzeto
Nascer é o milagre mais cliché que existe, já morrer é tão óbvio que chega ser ridículo.

marcelozorzeto