quinta-feira, 28 de julho de 2016

inventários

minhas muitas quase vitórias, não-sei-quantos-não-amores-perdidos, minhas infinitas semi-ausências ou semi-presenças e dezenas de verdades absolutas duvidosas e incuráveis apenas contemplam de longe a sombra do que não fui e minha improvável felicidade. aparando arestas. retirando as rebarbas
eu me sobro no meio de todo escombro e me assombro sempre no mesmo lugar.

marcelozorzeto

terça-feira, 26 de julho de 2016

confissões de um adolescente quarentão

querido diário
não dá pra se arrepender dos erros que você cometeu no passado, até porque a pessoa que você é hoje é 87,3% diferente daquele você de 10, 15 anos atrás... Ok, esqueçamos os remorsos e arrependimentos por isso, mas se daí você hoje, ainda comete os mesmos erros daquela época, aí meu irmão, você é um grande babaca... (falando por mim).

marcelozorzeto
Nascer é o milagre mais cliché que existe, já morrer é tão óbvio que chega ser ridículo.

marcelozorzeto

sexta-feira, 22 de julho de 2016

pela janela do tempo

pela janela do tempo, eu vejo a vida ficando pra trás
pessoas que passam pra nunca mais no meu olhar atento...
casas tortas, flores murchas, ruínas mortas de uma cidade que também sou eu

entretanto tudo, um dia, para,
o canto dos pássaros,
um coração que ama,
um olhar sincero;
e num movimento abrupto o agora se interrompe
e num momento, antes ininterrupto
congelo no instante de um segundo qualquer
se antes aqui, contemplo agora o horizonte daquilo que um dia fui.

marcelozorzeto

domingo, 3 de julho de 2016

viver

viver é um morrer e nascer diário
às vezes simultâneo, às vezes não
tem dias em que só morremos
e há outros em que se vive plenamente
e em ambos os casos chega-se ao mesmo lugar,

marcelozorzeto

sexta-feira, 24 de junho de 2016

adeus é

adeus é pingo d´água nos olhos de quem fica
ou se vai por aí. pois a saudade é céu,
esse chão de pássaros,
testemunha do tempo, das horas, da noite,
madrugada e dia... e sou eu no mar,
a marejar, verter, derramar
os olhos em uma maré
de lágrimas frias e secas,
molhando as estrelas, que se dilaceram
e se despedem para virar pó.
adeus também sou eu, quando me for.
ou você quando partir...

marcelozorzeto

quarta-feira, 22 de junho de 2016

poesia e poema

poesia é o corte
é o sangue
e a costura da carne exposta
já um poema é essa cicatriz
que vez ou outra te esfrega na cara
esse estado de vulnerabilidade do ser.

marcelozorzeto

terça-feira, 21 de junho de 2016

domingo, 19 de junho de 2016

o sonho de Ícaro

e há tantos céus nesta terra ainda não habitados, inalcançáveis, que se vistos de bem perto, dizem, ainda são azuis. não tenho asas, não sou pardal e o avião é a nossa maior prepotência
-Ícaro, meu filho, desce já dessa sua arrogância!
voar é só pra quem não se julga deus de nada.

marcelozorzeto

segunda-feira, 13 de junho de 2016

poetas bem distintos

Quintana é poeta-passarinho,
fez ninho da sua poesia,
é um ser pra lá de eterno.
eu, um pateta-sem-caminho,
bebo vinho e tenho azia
e estou longe de ser moderno.

marcelozorzeto

a flecha

tudo que nos atravessa deixa um rastro
como a flecha que atinge o peito e vara o corpo santo, 
mas permanece 
inesquecível. a cicatriz que não se apaga.
visível, no eterno do tempo, aos olhos e almas de quem se fere.
a flecha é a vida.


marcelozorzeto

domingo, 12 de junho de 2016

ladrão de infâncias

é o tempo o maior ladrão de infâncias 
o devorador de quase todas as crianças
tento sim, não dançar conforme a sua música
hei de ser feliz no descompasso da sua canção
(dois pés esquerdos contra o tempo)
e a esperança são como as horas e dias que já se foram, escrevendo na pauta da história do que sou e de quem esteve ao meu lado a melodia desafinada da minha vida. tempo canção. tempo coração que para. tempo sim, tempo não.


marcelozorzeto
A liberdade é um arame farpado em volta do pescoço. Quanto mais nos achamos livres, mais fundo na carne ele vai. A liberdade é a carne do pescoço no arame.

marcelozorzeto
a monstruosidade é também humana. somos todos monstros em potencial.

marcelozorzeto

terça-feira, 7 de junho de 2016

feliz mesmo é a árvore
que dança com o vento
se banha com a chuva
e ainda recebe os passarinhos em casa para uma boa conversa de fim de tarde...

marcelozorzeto

terça-feira, 31 de maio de 2016

desaprendendo a viver

estou desaprendendo a viver, aos poucos, pra não traumatizar
-sempre quis, mas nunca soube ser pássaro
voar é pra quem tem doce nas asas e algodão nos pés
já eu, sou como o chumbo e as palavras me pesam
afundo-me em poesia-movediça
areia nos meus olhos é verbo
esse refresco da morte.


marcelozorzeto

domingo, 29 de maio de 2016

sangrar

é tão incerta a distância entre aquilo que posso e o que quero. um mês. uma vida. uma alma e meia.
por isso essa coisa de sangrar toda vez que escrevo às tripas...
despudoradamente rasgado, sangro.
é como se renascesse na necessidade cruel e vital
de se transbordar no imponderável da palavra.

marcelozorzeto

quarta-feira, 18 de maio de 2016

um homem sentado na escada do metrô suplica:
Oh moço, me dá um minuto do seu TEMPO pelo amor de deus...

marcelozorzeto
me vê cem gramas de alma por favor
mas corta bem fininho, que é pra comer com pão...

marcelozorzeto