O que se acaba de repente, termina na pressa do tempo que se faz impiedoso, inquieto, ausente.
da sombra que fui ou que sou nada sobra e a beleza é só uma fantasia da idade que se vai - vaidade.
cada corpo que se despede leva também uma parte de mim, uma pitada de pele e duas de coração.
deve ser pra eu me encontrar no caminho de volta, que ficam os rastros, pois a saudade, por ventura, sempre vira cinzas. uma porção de "nãos" que insisto em colecionar, torna a despedida, mansidão, e a ausência, para quase todos, um favor quase sem igual.
marcelozorzeto
Santificados sejam nossos ofensores, assim como nós magoamos a quem nos tem perdoado.
domingo, 24 de novembro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
com a manada
pra que ficar procurando o caminho se todos já sabem a direção? olha esse amontoado de gente aí, correndo, quase se trombando, basta seguir o fluxo. pra que a dúvida? a dúvida corrompe, basta ter fé. pede que acontece... e ela, coitada, gastou muito tempo pensando no que deveria ser, quando na verdade já tinha sido fazia tempo. já veio ao mundo sendo, por imposição, mas aí então, já era!! disseram, as coisas são tão simples e ela vive problematizando cada porção de certeza, que besteira! rotularam-NA.
a solução tá aí, na cara de todos, estampada nos sorrisos cariados, nas capas de revistas, nos bares caros, no oprimir os mais fracos, e ela ali insistindo em olhar pelas entrelinhas. tentando analisar o contexto. pra quê isso? o invisível é invisível e ponto final, ninguém tá nem aí pra ele. ninguém tem tempo. ninguém tem saco para as coisas não rentáveis, e sem uma boa renda ninguém... né?
o ordinário mundo onde orbitamos... as ruas e seus carros, as lojas iluminadas, é trabalho, casa e fim de semana no shopping com as crianças, no parque com as crianças, sempre bem mal educadas por sinal. mas pra que insistir nisso? ela não ganha nada com isso. chata demais. Insanidade pura. E o lugar dos insanos é a margem. melhor parar agora, alguém sussurrou, isso pode ser o seu fim. pare agora antes que criem uma lei que...
marcelozorzeto
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
versos
quero e sou teu verso
me escreva quando quiser,
sou tua tinta também,
me rabisca em papel de pão,
mesmo sem inspiração
me faz de rima,
ou mesmo de lima pra tuas arestas
me diz silaba por silaba,
entre dentes e língua
lábios, saliva as palavras inventadas na hora
me canta pro sol, me grita no meio da rua
solta o verbo aos berros
e inunda esse mundo da lua
mundo imundo de mim sem você
viaja comigo num poema qualquer
só nosso
nossa poesia de domingo no sofá da sala.
marcelozorzeto
me escreva quando quiser,
sou tua tinta também,
me rabisca em papel de pão,
mesmo sem inspiração
me faz de rima,
ou mesmo de lima pra tuas arestas
me diz silaba por silaba,
entre dentes e língua
lábios, saliva as palavras inventadas na hora
me canta pro sol, me grita no meio da rua
solta o verbo aos berros
e inunda esse mundo da lua
mundo imundo de mim sem você
viaja comigo num poema qualquer
só nosso
nossa poesia de domingo no sofá da sala.
marcelozorzeto
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
impulso poético
Eu pensei em escrever um poema muito, mas muito bonito neste momento;
mas não me veio nada.
Minhas sinceras desculpas.
marcelozorzeto
mas não me veio nada.
Minhas sinceras desculpas.
marcelozorzeto
sábado, 28 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
encontros
Que todo o afeto não se dilua com o tempo (desejo). Mas se ele se
diluir (vida), que os resíduos contaminem todos os corações e nos
envenenem de vontade de nunca nos perdemos pelo caminho a sós. Que a
arte nos una e nos transforme num só movimento. O movimento humano do
encontro. A arte do encontrar-se. No outro e em nós mesmos.
marcelozorzeto
marcelozorzeto
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Instinto de sobrevivência
Eu me afasto quando o mar tá bravo
quando o fogo é alto
quando não tenho ar
eu me afasto quando o tombo é grande
quando o rio é fundo
quando o leão tá solto
quando a altura é insuportável pra minha vertigem
Eu me afasto quando o aperto de mão é frouxo
quando não me olha nos olhos
quando o abraço é vazio e vago
Eu me afasto quando sinto que a vida pede outro rumo
o risco?
- Ah o risco!
viver já é arriscado pra cacete.
amar é o único risco que vale.
marcelozorzeto
quando o fogo é alto
quando não tenho ar
eu me afasto quando o tombo é grande
quando o rio é fundo
quando o leão tá solto
quando a altura é insuportável pra minha vertigem
Eu me afasto quando o aperto de mão é frouxo
quando não me olha nos olhos
quando o abraço é vazio e vago
Eu me afasto quando sinto que a vida pede outro rumo
o risco?
- Ah o risco!
viver já é arriscado pra cacete.
amar é o único risco que vale.
marcelozorzeto
terça-feira, 27 de agosto de 2013
experienciando
Me vejo no outro, mas não em mim mesmo
Seria engraçado se fosse engraçado
Quando me olho, o real se afunda
E sobram apenas rascunhos e retalhos do cara que sempre quis ser.
Tédio
marcelozorzeto
Seria engraçado se fosse engraçado
Quando me olho, o real se afunda
E sobram apenas rascunhos e retalhos do cara que sempre quis ser.
Tédio
marcelozorzeto
sábado, 24 de agosto de 2013
eU SEI, MAS NÃO DEVIA.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)
Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.
O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.
http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
memória
Não fossem fotos e vídeos, o passado nunca teria existido.
As lembranças se perdem pelo tempo!
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
de frente
dentro do peito
escorre uma oração
o escuro da noite bate
e não sinto o chão
na lágrima
que percorre o coração
encerro a noite
num canto perdido
assim
tateando na fumaça
cerração
marcelozorzeto
escorre uma oração
o escuro da noite bate
e não sinto o chão
na lágrima
que percorre o coração
encerro a noite
num canto perdido
assim
tateando na fumaça
cerração
marcelozorzeto
domingo, 11 de agosto de 2013
Nuvem
do portão de casa até o mundo
é o tempo do meu silêncio
um quintal de areia e céu
onde piso os pensamentos
distantes do chão ou não
é onde estou e onde cresço
do meu sol vejo a janela que brilha
e da dor é o que mais me esqueço
é o tempo do meu silêncio
um quintal de areia e céu
onde piso os pensamentos
distantes do chão ou não
é onde estou e onde cresço
do meu sol vejo a janela que brilha
e da dor é o que mais me esqueço
marcelozorzeto
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Ismália
Ismália não é mais a mesma
agora quando enlouquece, sai por aí bêbada
toma Prozac com vinho Chapinha paga o analista com dinheiro da mãe
sobe na torre da Vivo só pra fazer um charme de doida
e só não pula por medo de não morrer e não acreditar no SUS
marcelozorzeto
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
...
quando ela se viu diante do primeiro abismo
gritou ao Mundo em vão
e acordou cercada de sóis e lençóis e aspirinas
marcelozorzeto
gritou ao Mundo em vão
e acordou cercada de sóis e lençóis e aspirinas
marcelozorzeto
quarta-feira, 31 de julho de 2013
reverberações
entre o choro e o grito
o infinito
a vaidade despedaçada em lágrimas
ecoa pelo quintal do ator
o corpo e o palco
o salto, um empurrão
ponte abaixo vai a eternidade de um momento
fica a nudez mais bela que já inventamos
entre o choro e o grito
fico eu infinito
marcelozorzeto
o infinito
a vaidade despedaçada em lágrimas
ecoa pelo quintal do ator
o corpo e o palco
o salto, um empurrão
ponte abaixo vai a eternidade de um momento
fica a nudez mais bela que já inventamos
entre o choro e o grito
fico eu infinito
marcelozorzeto
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