sexta-feira, 15 de março de 2013

Quase sem poesia...

Onde está a poesia?
No mendigo sentado na calçado implorando por um prato de comida?
No herói que morre afogado na enchente, tentando salvar alguém que se esqueceu de se salvar?
No braço perdido na avenida, do trabalhador braçal, que com a cabeça no lugar, não precisava de um psicólogo?
Onde está a poesia na miséria?
Escondida atrás da criança no farol?
Onde está a poesia de se morrer na fila do SUS, a espera de um milagre, que nem era pra ser um milagre?
No homofóbico de plantão?
Nos racistas de bíblia na mão?
No jornal mentiroso da televisão?
Onde está a poesia?
Na beleza fabricada em linhas de montagem?
Nos sonhos implantados como chips na nossa cabeça?
Onde está a poesia?
No herói sentado na calçada implorando por um prato de comida?
No mendigo que morre afogado na enchente?
Na poesia perdida na avenida?
No motorista bêbado?
No medo?
Onde?
Poesia?
 
marcelozorzeto

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Este poema contou com a colaboração de Líceo Colombo, Nilmaer Souza, Tata Miele e Ricardo Lacerda.

Este poema contou com a colaboração de Líceo Colombo, Nilmaer Souza, Tata Miele e Ricardo Lacerda.

Respeito + admiração = amor?

Amor > Respeito + admiração?
Depende...
Respeito + admiração > amor?
Amizade?
saudade do amigo
Provavelmente...
amor+ admiração + repeito = saudade?
amor - admiração - respeito² = prisão?
quem sabe?
amizade + respeito + admiração . (afinidade) = amor + amizade ?
Segundooo...
Varia.
Ahh a saudade! (Ahh the nostalgia!)
Saudade = amor + respeito + admiração - presença?
amor? pq? a duvida nasce da falta... seja la do que for
o que eu queria dizer era: amor nasce da nao falta

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Resumo da semana

Nada me irrita mais do que a verdade, que não existe.
Nada me emociona mais do que a emoção, que não se pode controlar.
Nada me decepciona mais do que a tentativa de catequisar índios, com ou sem tribo.
Não quero moldes, nem molduras sem sentido na parede da sala.
Quero tela em branco
Quero Marlon Brando
uma taça de vinho tinto e meu amor do lado
com notas musicais no nome
Afinidade de transpor mundos
matar a miséria que me mata
despreocupei-me todo.


marcelozorzeto

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Passadear

O passado é um ônibus quebrado, do qual desço ou permaneço sentado olhando pela janela embaçada.

Já pro futuro o que nos falta mesmo é a estrada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

o parto - ao meu grande amigo e poeta André Kaires






















antes de ser um poema, cada palavra espera, adormecida num canto do instante
o momento do parto
de vir à tona
à lona
à luz dos teus olhos meus
e eis que ela, a palavra, nos vem,
nasce aos corações, pulsando as preces
gritando com força, a força que às vezes ela não tem
rasga o ar e traz consigo num rompante, a minha voz
a minha dor, as minhas lágrimas
que venha pois, enquanto poema,
pois assim será vida, nuvem, pássaro em liberdade
no entanto, se apenas verbo, perdido no tempo,
cuide-se
para que não seja apenas a gaiola que impede o voo
nós humanos somos poemas que dormem
o poeta é a ponte entre o instante e a vida
nós queremos o voo
mas temos medo da altura.
marcelozorzeto

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

o pio do polvo

O poeta fura o papel com a palavra afiada
A língua saliva sangue e endurece os corações
Mas a mão sem fuzil não é tão branda quanto parece
Aceno de pena e nanquim pode cegar

Corre corre corre
Que a Cuca vem pegar
Hoje não tem futebol
Tem revolução
Só há ingressos pra geral
Se for pra guerra, quero arquibancada


marcelozorzeto

música

Cadê a música? 
Onde está a Música? 
A vida sem música é um livro de Graciliano Ramos. 
É vida seca! 
É vela apagada.

marcelozorzeto

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

irreal


Com um punhado de fotografias e alguns “tapes” esquecidos na gaveta do armário da sala, revisito meu passado e me recuso a acreditar que ele, um dia, tenha de fato existido. Aniversários e casamentos, festas em preto e branco, encontros e abraços apertados que há muito tempo não se abraçam mais. Reuniões regadas a afeto rasgado, congeladas no piscar de uma Polaroid. Um mundo guardado em uma pequena caixa de sapatos e que se apaga com o tempo. Lentamente. Pacientemente. Impiedosamente. Assim como nós nos apagamos todos os dias.

A impressão do sonho é a ilusão de que tudo foi real. Mas nada é.

Vagas memórias vagas. Pedaços de bolo de papel, pessoas de papel, com olhares de papel.

O almoço de domingo, o jantar de sábado. A visita inesperada em qualquer dia era sempre bem vinda. Amigos que já devem ser amigos nas fotos de outros amigos.

As sobras que guardadas na geladeira duraram até o dia seguinte de um dia que não é mais, há tempos, e que não tenho certeza se um dia foi de verdade. Um sorriso meu que mal posso provar que foi realmente meu.

Fantasmas e garrafas de Fanta espalhadas sobre a mesa, e a sobremesa que o tempo deixou sem gosto. Nem estas mal traçadas linhas poderão um dia ter sido escritas por mim.

O tempo apaga os rastros, as pegadas e as impressões. As digitais se desgastam.  A pele se dissolve nas coisas que tocamos. É a vida se dissolvendo nas individualidades.

E eu que não consigo imaginar a diferença entre o que é sonho e o que é memória.

E se o amor não for abstrato?

Que tudo mais seja abstrato.

marcelo zorzeto

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sem horas

sobra-me tempo pra me perder
e tenho apenas o sol que há pouco se pôs  
estampado na minha pele em vermelho
perdido em permanência 

senhores sem horas de sobra correm pela multidão apressados
alegres, preocupados
seja noite ou dia o atropelo é a tragédia aguardada em minutos
ele nos consome
nos come
devora-nos

à solução que me falta
salto à sombra do meu esquecimento
do excesso de soberba e dúvida
um mergulho em mim de perder o fôlego
olhos sem brilho ao norte do coração pulsante
e uma canção com a melodia que escorre nos olhos de quem a entoa
eu já não canto mais

sobram-me carícias duras, carícias rochosas
ausenta-se o pranto na minha face sempre mórbida
e são olhos novamente foscos os que me espreitam
duvido do tempo que verdadeiramente se perde de mim
que também duvida do sentido do quando
num breve amparo do agora
do nunca.

marcelozorzeto

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

sem fim

por vezes só a doença pode me trazer a cura só o desespero pode me aliviar a alma e só a dor pode me trazer a alegria, mesmo tardia é como enxergar a beleza no que é dito feio pervertendo o que há de mais sagrado nos julgamentos ver graça na sede que me mata e sorrir pra quem me olha com desprezo.

marcelozorzeto





segunda-feira, 1 de outubro de 2012

eu soul

e se meu poema só quiser ser um poema
onde palavras são só palavras e ponto final
e se minha canção for desafinada, só uma canção
de amor ou não, de ódio, tédio ou repúdio

e se meu olhar quiser ser apenas um olhar
sem segundas ou terceiras intenções
onde o seu brilho seja simples
como o sol e a chuva numa mesma tarde quente de verão

e se em minha arte não houver arte arrogante e prepotente?
e se tudo não passar de um simples cubo de gelo?

talvez nem existam estrelas
talvez nem haja sol, tampouco lua
e nem dias quentes de verão
talvez Shakespeare seja uma invenção 

não tenho certeza de nada
tudo pode ser só um sonho
ou pesadelo

onde a dúvida soa plena e deus é como o amanhã
morrer é regressar de olhos fechados


marcelozorzeto

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

poema número zero

tenho me despedaçado
ultimamente
intensamente
inversamente
violentamente
perdido partes de mim por aí
pelas ruas
pelas cinzas
pelo entulho
por detrás de cada placa de PARE

debaixo do tapete da sala
minúsculos “eus” por toda parte
carne, alma
calma/carma
sentimentos descartáveis, não descartados
empilhados
sentimentos que expiram
com prazo de validade

sinto tanta falta
de mim mesmo

sim e não misturados no mesmo copo sujo de café
se o resto é o que há para o agora, comerei
a sobra de alguns
é o banquete de muitos
se a minha alma se perde entre os céus
me embriago com a chuva
bebo do mesmo rio em que elas choram

tenho me desperdiçado
ultimamente
imensamente
pateticamente
poeticamente
como um pedaço de carne deixada no prato
muitos sentem fome, de vida e de carne
sinto a fome dos sonhos que ficaram pra trás

a luz me cega e a vida é pouca
os filmes em branco
negativos
"unprinted"
sem som, sem sombra
assombração
a falta que me faz tudo aquilo que me foge aos olhos
a sobra de tudo que forjo em minha cabeça
a casa que me viu crescer
a rua que me caminhou pelos primeiros passos
o som do azul quando se junta ao amarelo no pincel cego do artista
olha pro céu meu amor
a chuva já vem vindo

marcelozorzeto

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

silêncio

meu ser se assemelha ao céu que é somente seu
seu céu em meu ego cego, que segue adiante e ateu
ser seu sertão num cercado de sol à pino, um caracol...
sou instantes, um pouco antes da boca encontrar o anzol.

sou você sem fim ou sem mim
e minha alma só se acalma 
se em nossa cama,
em nosso jardim.
seu ser no meu sol, sem fazer sombra, sem me fazer só
meu eu, volúvel, solúvel ao me transformar em pó
desfazendo o nó
sem dó nenhuma de mim
de uma dor nem tão doída assim.
meu eu, seu nosso
seu meu, eu posso

no sal dessa terra, desse deus morto 
nessa cidade triste
nesse mundo insosso
de almas tristes e pensamento torto.

marcelozorzeto

sábado, 11 de agosto de 2012

cicatrizando

sem querer e sem pedir me vieram as palavras
palavras sem sal, sem tempero
palavras sempre mal passadas
que chovem aos berros
que gritam loucamente em suaves murmúrios
entre sorrisos tortos

palavras que saltam ao meu redor
brincam numa ciranda alucinante
com todas as letras de mãos dadas

as ideias me escapam
quero fazer delas pessoas de carne e osso
como misturar então dor e saudade e a boca amarga de café?

e tudo que tenho é um poema barato
sujo
desonesto
de sabor indigesto
que não consigo engolir nem a pau

palavras de carne também sangram
e sempre é difícil estancar a nossa insensatez
nos resta a cicatriz mal feita, mal costurada
a qual temos vergonha de expor em dias de sol

marcelozorzeto

sexta-feira, 27 de julho de 2012

amargo

sobre o pão amargo da noite, sagrado e dividido em partes desiguais
pairam palavras duras como o vento que leva a pena leve pelo ar
às pressas, abruptamente, violentamente sem ter chance de se despedir

sobre o chão batido, calado e sofrido
ficam as coisas que não são de deus nem do diabo
e essas andam por aí sem destino, em desatino, numa febre desmedida de frio

sobre o mundo cão, danado e perdido
minha poesia também se perde, desaparece nos becos idiotas
em olhos de crianças com fome que pedem trocado pelas janelas escuras do mundo

pelos caminhos que escolhemos em vão, arrependidos e sós
cabem desculpas nunca pedidas
em casos de amores mofados
rancores sem cura e prazer com compaixão
noites mal dormidas de insônia pensando na vida que não para e não espera

por onde antes havia a razão desmedida e cega de certeza absurda
penso agora, absurdamente na contraprova da verdade absoluta equivocada
na poeira que se levanta toda vez que alguém diz amém
e na fumaça de Sampa que sobe, cega, apaga estrelas e me faz tossir minhas desgraças

sabe o que? A dúvida é o que me excita!
a loucura dos versos propensos à lucidez
desmentem os laudos de minha sanidade mental em plena ebulição

viva os palhaços das causas perdidas que como eu acreditam no “porém”
muito mais do que em qualquer “além disso”.

estou perdido e não peço socorro, não quero socorro
corro só pelo mundo que há de me ver morrer só, assim como vim, nu e só

e palavras absurdas como estas
são apenas absurdas quando não se tem fé nas palavras

a loucura me comove mais do que a alegria
e é engraçado ver essa gente metida a sã brincando de dona do mundo
loucos são os outros
a loucura é um muro alto, de onde a gente tem que cair
obrigatoriamente tem que cair

marcelozorzeto

domingo, 3 de junho de 2012

poema de domingo

quando há corpos misturados a copos já vazios
é muito mais sutil o amor
é guardar em pequenas partes 
que flutuam nos espaços entre nós
o sorriso largo que se dá à toa

talvez eu tenha nascido pra sempre
e talvez o meu pra sempre seja por demais efêmero
mas é o necessário pra taça de vinho se consumir
pro beijo quente e molhado tocar as estrelas que se apagam

é o tempo suficiente pra existir
por alguns segundos
pra sorrir em detalhes esquecidos
pra chorar nas ondas do seu corpo também passageiro
como o vento

é meu tempo no teu corpo
é meu corpo em teu altar
vou chorar quando nos formos
vou rezar no escuro a prece mais sincera dos nossos dias de amar.

marcelozorzeto

quarta-feira, 23 de maio de 2012

pra sempre amor





quando te faltarem as palavras meu coração é teu
quando te faltar um abraço leva meu corpo pra sempre pra te aquecer
quando o teu sorriso teimar em se esconder dos teus lábios
toma minha boca inteira emprestada, mas ao devolver cobrarei juros de sorrisos e beijos
como forma de pagamento.

o meu todo é teu por nada
o meu agora é teu pra sempre
o meu sempre é hoje ao teu lado
deixe o sol nascer meu amor
que a lua logo vem
que os nossos rostos juntinhos, ao vento da varanda
são atemporais.

marcelozorzeto

terça-feira, 15 de maio de 2012

não desejarás a mulher do próximo!



Não desejarás!

Não desejarás a mulher do próximo!...

... e a mulher do próximo, pode me desejar?

E se desejo o próximo ou ele me deseja?

E se o próximo não deseja a mulher dele?

E se a mulher do próximo não deseja ele?

E se os três nos desejamos?

E se ninguém deseja ninguém?

E se minha mulher deseja a mulher do próximo?

E, por que não... o próximo?

E se o próximo deseja minha mulher?

E se eu desejo a minha mulher e a do próximo?

E se ambas me desejam?

E se... todos nos desejamos?...

Sempre aparecerá alguém para dizer: "vamos parar por aí!... não desejarás!... e ponto final!"

Sérgio Kohan

quarta-feira, 9 de maio de 2012

relógio analógico

A nossa vida só vale um segundo: aquele em que nós estamos agora,
agora,
agora,
agora,
agora,
agora,
agora,
agora...

domingo, 1 de abril de 2012

assim fonia


a vida é assim como o tempo
o que é novo envelhece e não pede licença

o homem é assim tanto quanto a mulher
paixão à flor da pele, de almas sutilmente intensas e hostis

o amor é assim tal qual o ódio 
corações abertos e olhos fechados,
vice-versa e tudo já é cinza

o mundo e também os sonhos são assim
um reflexo que inexiste diante desse espelho opaco do rancor 

seu me sei demasiadamente nada,
uma porção de insignificâncias

mas sou vida, sou tempo e sou sonho enquanto posso
sou homem e mulher, amor e ódio e fruta madura no pé
peço a mais bondosa licença e desculpas sinceras 
o meu som é assim, alto demais pra quem odeia essa música das almas.

marcelozorzeto