sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

sem mais

Sob os pés tão pouco chão
não há mais pedras no caminho
não há caminho
me sinto bem sozinho. imensidão

Sob o céu tão pouco pão
não há mais asas
não há mais voo
recomeço. paulatina escuridão

Sobre mim, muito pouco são
não há mais casca
tampouco O afeto me basta
vulcão adormecido. deleitosa erupção.

marcelozorzeto

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

sonhos e os poemas

escrevo os meus poemas no intervalo entre sonhos
sigo a minha vida num devaneio sem exigir mais compreensão
vivo as minhas preces feitas de poréns que vão muito além de mim
sinto fome e sede do pão e do vinho, da santa mesa posta
e dos milagres que me redimiam os pecados da carne

nesse altar de almas e memórias infinitas
aguardo a exato momento para repartir a vida, o corpo e o sangue em comunhão
é certo que espantarei os seres mais incautos.

marcelozorzeto

a linha tênue do tempo

é o tempo que arrebenta a linha tênue e tensa entre a morte e a vida;
no altar dos deuses tortos não há anjos nem demônios, e não hei de dizer uma só palavra com o intuito de alcançar o céu, apenas me calarei. será um salve-se quem puder, eu sei. e vou continuar cantando pra partilhar o meu canto com aqueles que não precisam de mim.

marcelozorzeto

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

são paulo e seus rios

São Paulo, a cidade que sepulta seus rios
todos vivos, todos mortos
rios de asfalto quente nas várzeas-avenidas
pó, fuligem e escuridão das águas nas marginais
margeia o progresso a ganância na regressa cidade
a metrópole que se atira do alto de um arranha-céu sem fim.

marcelozorzeto

o exaustivo silêncio

o exaustivo silêncio
das horas que amargam o dias
minuto a minuto por agora, à conta-gotas
adiante aos trancos
solitária solidão dos trópicos
diante dos barrancos do meu viver...

marcelozorzeto

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

coração verborrágico

o meu olhar-palavra
é o verbo no infinito do presente
ansiosas esferas executando a frase em silêncio 
silenciosos lábios, língua em repouso
minha iris é um arco que me lança ao mar.
das batidas do meu coração verborrágico
uma oração em meus olhos se espanta
exclamação de retina
naufrágio em versos e solidão.


marcelozorzeto

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

feliz 2017

o que eu desejo a você nesse novo ano? um eu bem melhor para o mundo.

marcelozorzeto
- compensa [ser] são? 
- NUNCA/não...

marcelozorzeto

deus arte amor

amor, deus e arte são um mesmo ser separados na maternidade. quando se encontram levam o nome de plenitude ou vida!

marcelozorzeto

prefira as pedras

Toda vez que alguém te disser, em tom de ultimato:
- você escolhe, ou tal coisa ou eu... não importa quem, quando ou onde, escolha a tal coisa sem pestanejar. Prefira a companhia das pedras.

marcelozorzeto

liberdade e empatia

a liberdade pode estar na tentativa primordial de compreender o outro em todos os aspectos, pois todo julgamento feito por nós, e são muitos, é uma prisão onde nos colocamos invariavelmente, e a empatia pode ser nossa chave.

marcelozorzeto

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

paulistanidades ou o amor que só existe nas entrelinhas

andando na avenida central desta capital de concreto, me deparo com a vitrine da loja modesta, paro e me olho no espelho, como todo bom Narciso, e me pego incompleto, surpreso e indiscreto aos olhos das pessoas que passam solitárias. num leito largo dessa mesma avenida, por onde passa um rio sólido de asfalto quente, pessoas atravessam, se olham, se esbarram, mas não se deixam atravessar... são corações que naufragam nessa maré dos desencontros e a solidão é uma espécie de busca por sobreviventes.
marcelozorzeto

sábado, 17 de dezembro de 2016

sinceridade

a sinceridade é a virtude de se dizer o que se sente e pensa. é uma espécie de mensurador de pureza da alma. geralmente isso só existe em crianças até 5 anos de idade e idosos a partir dos 80. ela também é um bom termômetro dos grandes encontros da vida, ter alguém sincero ao lado pode ser o toque de midas, raro, mas ocorre. Mas lembre-se: ser sincero não significa ser estúpido e rude. um grande viva as nossas dissimulações diárias.

marcelozorzeto

superfície

numa sociedade superficial, quando mais profundo você cavar, mais terra vai cair por cima de você. eis um buraco, frio, escuro e só seu...

marcelozorzeto

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

notas sobre um presente não muito distante

eu não me conformo, mas também não me desespero mais, não tenho mais tempo nem cabelos pro desespero. ninguém os tem... da escuridão que existe dentro e fora de mim, eu enxergo a silhueta de corações aborrecidos e envelhecidos... e é pela lua insistir em nascer, mesmo tarde da noite, que muitas vezes me permito ver o contorno daquilo que acho ser o real. contornos impalpáveis, na fumaça dos pensamentos que nem sei mais se são os meus (certamente não são). quero recomeçar do zero, mas ninguém pode recomeçar do zero. é impossível... estamos todos muito viciados de meios e fins. o começo só é o verbo pra quem ainda não entendeu como se soletra a palavra vida. e é simples:

F-O-D-A-S-E

marcelozorzeto

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

poema não poema

olha, nenhum poema é superfaturado.
nenhum poeta jamais aceitou propina.
não há máfia na poesia!
a poesia revela o mundo, não se esconde por detrás de ternos caros e desvios da verba da merenda escolar.

marcelozorzeto

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

o jardim das borboletas

fugindo ele corre...
corre e entra às pressas num jardim qualquer,
aleatório e alienado
ele corre
a grama é cinza-chumbo e as flores
de um estranho gás neon verde-bandeira
Lhe retiram o corpo,
lhe roubam a carcaça,
a gravidade lhe arremessa,
recebe carícias deturpadas de coturnos grossos e indignos,
é outono e todas as borboletas estão mortas,
estranhamente mortas por uma espécie de crucificação.

marcelozorzeto

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

sobre a arte e suas formas de expressá-la

daí eu tenho um discurso, político, poético, político-poético, político-poético-social potente em sua forma de expressão, contra as tiranias do mundo inteiro. daí eu quero ou gostaria que todos o ouvissem (o discurso), mas então eu cobro pra discursar. e cobro caro. inviabilizo o acesso e ele (o discurso). apenas tentando entender... marcelozorzeto

domingo, 4 de dezembro de 2016

meus poemetas

não sou eu quem escrevo os meus poemetas metidos a besta... a propósito, eu malemá sei escrever. palavras são pra mim como pássaros, eu só as escuto - não ouso entendê-las. desisti, há tempos, de questioná-las. ao contrário do que um dia alguém pode ter pensado, são eles, os poemetas, que me rascunham, reinventam o que sou, reescrevem meu significado por linhas invisíveis e entregam aos meus caros inimigos, minha cabeça numa bandeja de 1,99.

marcelozorzeto

sábado, 3 de dezembro de 2016

sábias-laranjeira

pode deixar o vento burilar na sua pele, minha estrela-menina do mar. pode beijar o sol, com lábios de caracol, meu pequeno menino cor-de-terra, mas permita que o amor-sangue-nosso, mangue-aço-etílico, nos embriague da cabeça aos tantos pés entrelaçados na grama do belo brincar. veste lua, o seu pijama de prata, e nos convida pra valsa das suas fases perfeitas, pois a madrugada, a mansa e morosa madrugada, é um bom lugar pra se esconder da morte, entre os muitos sonhos e o canto dos sábias-laranjeira.

marcelozorzeto