quarta-feira, 18 de maio de 2016

viúvo do mar

ontem estive na praia
calor infernal
havia lá um senhor de gravata e paletó
perguntei o porquê
ele disse: sou um viúvo do mar

marcelozorzeto
toda vida é um poema
mas nem todo poema é poesia
e nem toda poesia é vida

marcelozorzeto

hicups

perdi um poema numa crise de soluços
desceu pela glote
...espasmos poéticos

marcelozorzeto

muro

murros
muros
urros
FUTURO...
Para alguns, a arte é a mais perigosa das doutrinações, pois ela pode potencializar a liberdade.

marcelozorzeto

terça-feira, 10 de maio de 2016

madrugada. depois do último gole no copo da dignidade
os primeiros-socorros das desilusões
mais indignas. ouvi freadas no asfalto. o carro não bateu. disse ele.
apenas capotei. a cabeça dói... chame a doutora. 33x2.
fogos do golpe branco.

marcelozorzeto

sábado, 7 de maio de 2016

um poema pousou

esta manhã presenciei o exato momento em que um poema, todo prosa, pousou no parapeito do prédio vizinho
e da minha janela pude admirá-lo, assim, de longe
intocavelmente belo!
era um poema de Bandeira
com as asas de Drummond
voou como se de mim zombasse,
eu sorri e voei atrás dele.

marcelozorzeto

sexta-feira, 6 de maio de 2016

os laços

no papel de embrulho amassado 
sobre a mesa percebi 
como são frágeis os laços em volta 
do presente, do destino 
e das pessoas.

marcelozorzeto

quinta-feira, 28 de abril de 2016

vazio

o vazio que consome a ausência daquilo que ainda não tenho, é o mesmo vazio que preenche a ilusão de ter aquilo que já conquistei.
marcleozorzeto

segunda-feira, 25 de abril de 2016

efêmero

há muito da minha morte ao sentir saudades de alguém que já se foi. pois o tempo é a chama que consome o ar e exige o efêmero de todos nós. um adeus ao ontem de sempre que é sempre morte. a minha ressurreição se dá em abraços absurdamente sinceros, sempre raros. a minha única possibilidade do eterno é o silêncio que faço pra ouvir o coração de quem tenho em meus braços.

marcelozorzeto

quinta-feira, 14 de abril de 2016

transição

primeiro o amor
é a vida
sou criança
é o tempo
então tudo é noite
é partida
há saudade
o lamento

marcelozorzeto

terça-feira, 12 de abril de 2016

um chute no saco

em mim, um poema é como um chute no saco
quando pega em cheio eu me contorço no chão, chego a perder o ar, me faz até lembrar da existência divina... e se não pegar, não acontece nada!

marcelozorzeto

cuidado com o cão

a palavra que nos fere sai da nossa própria boca 
verbo-projétil perdido no espaço procurando um alvo
a palavra que nos mata, é ego de certeza lasciva
um ser esférico atento em ódio por lados desiguais
a palavra que enterra, é hipócrita, crisálidas dóceis
sobre o vermelho viscoso que coagula nas artérias de deus
a palavra redenção nasce e morre em prantos de uma poesia anoréxica
nesse insalubre ar que eu respiro, e que em raro espanto extingue-se bem diante da minha miséria
sou eu mesmo o meu melhor antipoema.

marcelozorzeto

domingo, 10 de abril de 2016

cateterismo poético

tentou botar o coração inteiro nas palavras de seu verso
não aguentou, teve um infarto fulminante de poesia
...desfibrilador para as amarguras em 1, 2 ,3...
abre-se o peito às pressas, marca-passo em verso e prosa
é o amor tentando desentupir as artérias 
...desfibrilador para as amarguras em 1, 2 ,3...
cateterismo poético para o ódio cardíaco
pontes de safena pra se safar de tanta caretice
-mas não se safa!
ouve-se um "piiiii" continuo...


marcelozorzeto

sexta-feira, 1 de abril de 2016

tempo rio

passo pelo tempo como um rio pelo seu leito
caudalosamente e tenro
escorro por horas estreitas e xícaras de café amargo
sou como a água no fluir dos meus sonhos e tenho a flor da morte dentro do peito
corre dentro de mim sangue, inverno, margem, além de solidão
estanco os pensamentos vis, me desespero na razão dos fatos guardados do amanhã
o meu navegar nesta vida, senhora, é sem direção
no encontro com as águas do mar torno-me eterno e plácido.

marcelozorzeto

quinta-feira, 31 de março de 2016

o reino onde eu moro

Moro num reino tão cheio de gente. tão cheio de lixo - sou bicho
tem gente no lixo. e lixo na gente - enchente

concreto armado, arame farpado no muro - perjuro
e armada é a cama pro corpo que morre no chão da calçada - velada

coberto de caixas de papelão - sou cão
abundante é a oferta de pão dormido - futuro
"fudido"

a miséria é armada no vão do concreto - excreto
e o lixo é o banquete no banco da praça - desgraça

país-ficção fricção social no coreto - meu reto
a igreja condena. a justiça, gangrena. o estado é laico e crônico - irônico

a carne rachada na sola do pé - tem verme do bucho, sarjeta é luxo no nicho da fé.
e a gente invisível na fome da praça se abraça velando o defunto - no agora
pois o tempo não infere se é dia,
se é tarde,
ou se é noite - aurora.

marcelozorzeto