quinta-feira, 20 de agosto de 2015

águas calmas

na mesma pele que sente esse frio de agora
é onde tenho passado minha vida inteira à flor
no amor que transpiro, me refresco
com os poros que transbordam rios lodosos inundando o coração
o arrepio do toque da maré
o sal na língua molhada
o beijo roubado em Iemanjá
me parecem tão exatos quanto o porvir dos meus sentimentos
que não virão.

marcelozorzeto

domingo, 16 de agosto de 2015

canção de domingo

esse canção é pra você que sai pela porta da frente e nunca mais volta
perde o endereço, esquece o ponto referencial
é uma canção reticente, um pouco de mim, sim, anda por demais bem carente
sem quase nenhum nutriente, quase um biscoito de água e sal
não tem refrão, nem estribilho e a melodia é bem cafona
e neste verso, como sem inspiração, pra rimar, enfio sem fazer sentido, uma canção da Madonna
(Wanting, needing, waiting
For you to justify my love)
mas por mais que te pareça confusa e inapropriada, essa canção ainda não está morta
pois relembrar o encontro, o encontro que celebra a vida, faz chover na minha aorta
(meu coração hortaliça, tem cheiro verde e alho poró
e tempera minha vida, como se só existisse uma só)

dedico esses versos bregas de domingo
pra você que não sabe por aonde anda
mas se por acaso encontrar minha vó em algum bingo
diga que mando um beijo à dona Vanda

e se ainda por acaso um dia decidir fazer o caminho de volta
pois encontrou o mapa perdido da minha cidade
saiba que o abraço ainda vai sim, ser daqueles apertados, que nunca se solta
pois um dia fomos vizinhos de corpo, de alma e cumplicidade.

marcelozorzeto

Diálogo em versos com Gisele Jota sobre um Brasil coxinha

Eu:  A nossa moral é de-formação pura
       vivemos um momento de fritura
       coxinha de ditadura
       queres a volta da farda hostil?
       és uma criatura imbecil


Ela: Moral frequentemente dura 
       travestida de candura 
       elite adormecida (pura?)
       jura que sentias falta do vil?
       és brasileiro digno de covil

                   

Eu: ai, essa candura gordurosa!
      dessa gente duvidosa

      eu quero estar bem distante
      seja no pensamento que viaja
      seja montado num elefante!


marcelozorzeto

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

escrevo na contra-mão do futuro
e me sinto como em meus versos
sou piegas, sou também casmurro
nas profundezas me acho imerso
abro mão do meu passado
canto a lua e canto o sol
sou um caipira embasbacado
nesta cidade caracol
o verbo é meu presente
danço nu na minha tribo
nesse mundo a mim ausente
ser escravo eu não consigo
sobe o tempo devagar
como a ave voa longe
trago no peito meu amar
onde a cicatriz se esconde
andorinha em tempestade
relâmpago na montanha
chove forte na cidade
nunca tive pressa tamanha.
marcelozorzeto
rasgou suas costas num caco de telha
a pele vermelha
o sangue vermelho
levou 3 pontos e um café com leite
é, a vida deixa marcas
que duram uma vida inteira
pedaços da gente que ficam pra trás.


marcelozorzeto

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

sou razão e sou rasura
sou o pão e a penúria
extrato amargo de céu
nesse chão vil de feiura
sou um cão, pura lisura
numa selva-arranha-fel
Sou Jasão e noite escura
paralela estrutura
nesse jazido cordel.
marcelozorzeto

sexta-feira, 31 de julho de 2015

e o som da palavra silêncio é ensurdecedor 
se não me calo, me curvo diante da minha estupidez 
no vácuo, somos sábios
a poesia é também feita de gestos e olhares.

marcelozorzeto

quarta-feira, 29 de julho de 2015

e quem sabe se pra se botar o coração nas palavras
não seria preciso um infarto de poesia
pra desfibrilar a amargura com descargas de amor
e desentupir as artérias do ódio em vão.


marcelozorzeto

terça-feira, 21 de julho de 2015

sejamos da poesia ou da tentativa de.

meu precipício
o princípio do voo
me precipito
me precipita o chão
quedar-me
deixar-me cair
um copo
um corpo
cansado e torto
se desenha no espaço
azar desde o início
asas e o acaso
pausar o coração
(meu vício)
na dissonância do verbo
um olhar de estrelas
azul-escarlate
cinza-estranho e escuridão


marcelozorzeto

rotina

todos os dias o sol me amanhece em silêncio
(quando nubla é pra eu dormir até mais tarde)
depois me entardece em ruídos calados
num coerente carinho de quentura de abraço de mãe
depois vem a lua e me anoitece com todo cuidado
adormeço pra me madrugar de sonhos
pré amanheço de estrelas ainda ávidas
do orvalho e cheiro de café fresco e hortelã
o meu tempo sou eu
o meu tempo sou eu e o céu
teimosia da vida
filho da árvore
a minha mãe natureza
sou eu natural do milagre do mundo.
marcelozorzeto

segunda-feira, 20 de julho de 2015

amigo de café
amigo de cerveja
amigo só de fé
amigo que lê Veja
amigo de axé
amigo de peleja
amigo cafuné
amigo da inveja
amigo bem mané
que amigo sempre seja,



marcelozorzeto

sexta-feira, 17 de julho de 2015

confesso que enlouqueço, que tropeço e que padeço, e que me faço de sonso sem nenhum adereço. que me canso de tudo e que me calço aos soluços, de sutilezas adornadas e sensações sem fins lucrativos nesse longo percurso. e que pra acertar o alvo em cheio, com sorte, sem errar nos meus anseios, ou perder o meu próprio norte, é preciso despencar sem medo, subir ao céu da morte, tocar a escuridão com os dedos, num profano e profundo corte, pra me fingir de forte até o dia do meu desenredo.

marcelozorzeto

quarta-feira, 8 de julho de 2015

o ontem é sempre o dia em que ainda não morremos com certeza
no hoje há sempre a possibilidade insana de não existir o amanhã.

marcelozorzeto

quinta-feira, 18 de junho de 2015

segunda-feira, 15 de junho de 2015

meu verso não canta deus
nem o diabo
meu verso canta o silêncio
verbo ateu
entre os espaços das palavras

marcelozorzeto

segunda-feira, 1 de junho de 2015

é bem difícil ser síntese
todos gozam a promiscuidade de ser prolixo
conheço pessoas que são abreviadas
no entanto, me perco com tantas siglas.


marcelozorzeto

sexta-feira, 22 de maio de 2015

São Paulo apressada
nessa pressa sem apreço
não me abraçam
na rua da Consolação
Precisa-se passar depressa.
precisa-se Passar depressa!
precisa-se passar dePressa?
paga-se um preço precioso
por se passar assim, sem afago
sem afeto eu posso me afogar
pois então eu penso
folgo
precipito-me
passo-a-passo
pouso
pássaro
preguiçoso
impreciso
fumo a fumaça que mesmo faço
adormeço para sonhar
espero o sol a divagar
e são, como nunca sou
amanheço querendo ser gente
tenham paciência por favor
falta paçoquinha, meu AMOR.
marcelozorzeto

sábado, 16 de maio de 2015

a liberdade é meu abismo favorito
sem saber pra onde vou, voo
? alguém que me indique direções

a descoberta dos meus limites
me tomou a vida inteira-tentativa de viver
?alguém pronto pra me doar seu sangue estéril

estou perdido em meus próprios valores
eu os inventei, eu mesmo criei a besta
e agora solicito um norte, mais ao sul
um hemisfério quase morto
   
ser livre é o pior pesadelo
ser livre é morrer antes do tempo
sou palavra apenas
sou um livro congelado
e o amor não salva ninguém.

marcelozorzeto

segunda-feira, 11 de maio de 2015

em cada palavra dita
há um pouco de dente
lábio
língua
gengiva
saliva
hálito
e coração

a palavra dita
é beijo soprado no rosto
ou na nuca
na boca do estômago
com um fonema-soco

em cada lágrima
que escorre a retina
vejo olhos
olho cílios
sinto pele e gosto
sede e sangue
e ferro

em cada olhar
um pouco de alma
calma e terra e céu
chão de pássaros
cantam azul

a cada dia
um pouco de vida
cheia de morte
talvez azar
talvez não
sorte


marcelozorzeto

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Tempo

não há motivos pra tentar entender o Tempo
que deduzo ver passar...
pois sou eu a passar por Ele (e não o oposto)
você Tempo, você e a Sua monstruosa inércia
que me invade e me entope as ideias
com dias e artérias
meses e décadas inteiras estragadas
solstícios, equinócios e carnavais ruins
no passado Tempo, sou eu de lembranças míseras
e futuros que talvez não
no presente, sendo estupidamente invisível
consigo, às vezes, me enxergar
estou sempre muito ocupado na tentativa do viver
me esqueço de estar
e não deixo de estar, mesmo sem querer
como um trem sem estação ou paradeiro
o Tempo apenas segue o seu trilho de fio distante
num carretel de vida de todo sempre por onde nasço
passo, morro e me costuro
ser só passageiro, só
desde o antes, até o nunca
vago lá
vagueio aqui
vagalumeio por entre luzes
de vida
pra me tornar tempo e nada e mais.

marcelozorzeto