segunda-feira, 1 de junho de 2015

é bem difícil ser síntese
todos gozam a promiscuidade de ser prolixo
conheço pessoas que são abreviadas
no entanto, me perco com tantas siglas.


marcelozorzeto

sexta-feira, 22 de maio de 2015

São Paulo apressada
nessa pressa sem apreço
não me abraçam
na rua da Consolação
Precisa-se passar depressa.
precisa-se Passar depressa!
precisa-se passar dePressa?
paga-se um preço precioso
por se passar assim, sem afago
sem afeto eu posso me afogar
pois então eu penso
folgo
precipito-me
passo-a-passo
pouso
pássaro
preguiçoso
impreciso
fumo a fumaça que mesmo faço
adormeço para sonhar
espero o sol a divagar
e são, como nunca sou
amanheço querendo ser gente
tenham paciência por favor
falta paçoquinha, meu AMOR.
marcelozorzeto

sábado, 16 de maio de 2015

a liberdade é meu abismo favorito
sem saber pra onde vou, voo
? alguém que me indique direções

a descoberta dos meus limites
me tomou a vida inteira-tentativa de viver
?alguém pronto pra me doar seu sangue estéril

estou perdido em meus próprios valores
eu os inventei, eu mesmo criei a besta
e agora solicito um norte, mais ao sul
um hemisfério quase morto
   
ser livre é o pior pesadelo
ser livre é morrer antes do tempo
sou palavra apenas
sou um livro congelado
e o amor não salva ninguém.

marcelozorzeto

segunda-feira, 11 de maio de 2015

em cada palavra dita
há um pouco de dente
lábio
língua
gengiva
saliva
hálito
e coração

a palavra dita
é beijo soprado no rosto
ou na nuca
na boca do estômago
com um fonema-soco

em cada lágrima
que escorre a retina
vejo olhos
olho cílios
sinto pele e gosto
sede e sangue
e ferro

em cada olhar
um pouco de alma
calma e terra e céu
chão de pássaros
cantam azul

a cada dia
um pouco de vida
cheia de morte
talvez azar
talvez não
sorte


marcelozorzeto

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Tempo

não há motivos pra tentar entender o Tempo
que deduzo ver passar...
pois sou eu a passar por Ele (e não o oposto)
você Tempo, você e a Sua monstruosa inércia
que me invade e me entope as ideias
com dias e artérias
meses e décadas inteiras estragadas
solstícios, equinócios e carnavais ruins
no passado Tempo, sou eu de lembranças míseras
e futuros que talvez não
no presente, sendo estupidamente invisível
consigo, às vezes, me enxergar
estou sempre muito ocupado na tentativa do viver
me esqueço de estar
e não deixo de estar, mesmo sem querer
como um trem sem estação ou paradeiro
o Tempo apenas segue o seu trilho de fio distante
num carretel de vida de todo sempre por onde nasço
passo, morro e me costuro
ser só passageiro, só
desde o antes, até o nunca
vago lá
vagueio aqui
vagalumeio por entre luzes
de vida
pra me tornar tempo e nada e mais.

marcelozorzeto

quarta-feira, 22 de abril de 2015

No precipício era o verbo e o verbo era adeus
Ele, o precipício, era deus
Já o verbo, princípio de saudade.

marcelozorzeto

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tietê

Como posso ser de um rio tiete?
Esgoto em minha vida
Desgosto a céu aberto
Tietê dos meus dramas.

marcelozorzeto

sábado, 28 de março de 2015

há sempre um grito desesperado de sangue ao se atravessar a avenida de um coração
um cheiro amargo de ferrugem no canto da língua
sentimentos de aorta
um equinócio de saliva
mil saúvas de solidão

podem as artérias chorar?
e as coronárias em convulsão?

minha jugular caótica
uma carótida exceção
é sina de quem se atropela
sempre que atravessa
a avenida de um coração

marcelozorzeto

beijo da língua

nem tudo o que não é o que parece ser
realmente não é o que parece ser
às vezes é pura dissimulação
cada vez mais acredito em metáforas
e menos em desaforos explícitos.



marcelozorzeto

domingo, 22 de março de 2015

escrevo torto
por linhas tensas

palavras retas
de um anti-herói

sou o deus do revés
um diabo ranzinha

um vendedor de churros
na esquina da Augusta

e não estou só

marcelozorzeto

quarta-feira, 18 de março de 2015

...e a essa gente sã
que se acha sã
que acredita nisso com afinco
que grita alto sua fé pelas paredes das igrejas
que vive a mostrar atestado de saúde
em reuniões de condomínio
e promete pro espelho de dedos cruzados
a elas, eu desejo que toda sua "razão"
e o delírio estúpido da sua sanidade
caiam por terra como uma trombose hepática
uma necrose isquêmica dos sentidos


um salve pros aviões sem asas
e a crença de que somos
verdadeiramente
seres inteligentes

marcelozorzeto

sábado, 14 de março de 2015

É no intervalo da ausência
que invento o mundo
as sombras que me abrigam
as sobras que me invenenam
a sede que me afasta do mar

e de braços com o acaso
apenas sinto o gosto do vinagre
e a ferrugem das horas
me corroem o existir.

marcelozorzeto

quarta-feira, 11 de março de 2015

A poesia é o pensamento decantado
e em ebulição
química das palavras
reação de sentimentos
em cadeia
marcelozorzeto

segunda-feira, 9 de março de 2015

meus tantos planos mortos
por inanição
ideias ressuscitadas, reencarnadas
em um corpo equivocado
meus sonhos todos tortos, remendados
a esparadrapo e contradição

meus prazeres pré-moldados, de gaveta,
reprimidos, nos gritos nunca extravasados
em silêncio com afetos invertidos

são as maravilhas da vida em contrário efeito
nesse anti-horário peito
sou mesmo um antiquado desbunde
com a conta bancária em profunda escuridão

marcelozorzeto

sexta-feira, 6 de março de 2015

a cura

o louco
a louca
a loucura
todos tem salvação
tem uma cura:

não se manter são
o louco
a louca
a loucura

marcelozorzeto

quarta-feira, 4 de março de 2015

calar-se

quero sair do meu próprio contexto
me rascunhar até que alguém me escreva

marcelozorzeto
queria ser poeta
me tornei um pateta

marcelozorzeto

suicídio

Não aguentava mais o mundo e num ato de desespero, abriu a janela de seu apartamento, olhou para baixo e lá se foram 17 andares. Não houve nenhuma chance pra seu computador.


marcelozorzeto
nascer tem me tomado um tempo quase infinito
um tempo que não tenho
falo de nascer de verdade, não da expulsão do paraíso
eu, enquanto (desa)feto do meu próprio parto
não conheço o mundo nem o vizinho da frente
invejo as pessoas que nascem,
que se dão à própria luz.



marcelozorzeto