sábado, 28 de março de 2015

beijo da língua

nem tudo o que não é o que parece ser
realmente não é o que parece ser
às vezes é pura dissimulação
cada vez mais acredito em metáforas
e menos em desaforos explícitos.



marcelozorzeto

domingo, 22 de março de 2015

escrevo torto
por linhas tensas

palavras retas
de um anti-herói

sou o deus do revés
um diabo ranzinha

um vendedor de churros
na esquina da Augusta

e não estou só

marcelozorzeto

quarta-feira, 18 de março de 2015

...e a essa gente sã
que se acha sã
que acredita nisso com afinco
que grita alto sua fé pelas paredes das igrejas
que vive a mostrar atestado de saúde
em reuniões de condomínio
e promete pro espelho de dedos cruzados
a elas, eu desejo que toda sua "razão"
e o delírio estúpido da sua sanidade
caiam por terra como uma trombose hepática
uma necrose isquêmica dos sentidos


um salve pros aviões sem asas
e a crença de que somos
verdadeiramente
seres inteligentes

marcelozorzeto

sábado, 14 de março de 2015

É no intervalo da ausência
que invento o mundo
as sombras que me abrigam
as sobras que me invenenam
a sede que me afasta do mar

e de braços com o acaso
apenas sinto o gosto do vinagre
e a ferrugem das horas
me corroem o existir.

marcelozorzeto

quarta-feira, 11 de março de 2015

A poesia é o pensamento decantado
e em ebulição
química das palavras
reação de sentimentos
em cadeia
marcelozorzeto

segunda-feira, 9 de março de 2015

meus tantos planos mortos
por inanição
ideias ressuscitadas, reencarnadas
em um corpo equivocado
meus sonhos todos tortos, remendados
a esparadrapo e contradição

meus prazeres pré-moldados, de gaveta,
reprimidos, nos gritos nunca extravasados
em silêncio com afetos invertidos

são as maravilhas da vida em contrário efeito
nesse anti-horário peito
sou mesmo um antiquado desbunde
com a conta bancária em profunda escuridão

marcelozorzeto

sexta-feira, 6 de março de 2015

a cura

o louco
a louca
a loucura
todos tem salvação
tem uma cura:

não se manter são
o louco
a louca
a loucura

marcelozorzeto

quarta-feira, 4 de março de 2015

calar-se

quero sair do meu próprio contexto
me rascunhar até que alguém me escreva

marcelozorzeto
queria ser poeta
me tornei um pateta

marcelozorzeto

suicídio

Não aguentava mais o mundo e num ato de desespero, abriu a janela de seu apartamento, olhou para baixo e lá se foram 17 andares. Não houve nenhuma chance pra seu computador.


marcelozorzeto
nascer tem me tomado um tempo quase infinito
um tempo que não tenho
falo de nascer de verdade, não da expulsão do paraíso
eu, enquanto (desa)feto do meu próprio parto
não conheço o mundo nem o vizinho da frente
invejo as pessoas que nascem,
que se dão à própria luz.



marcelozorzeto

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

receita da vovó

200 gr de auto-piedade
150 gr de solidão
1 lata de puro ódio
1/2 maço de compaixão
2 colheres de chá de esperança
1 quilo de amor ou desilusão
500 gr de coração congelado com o tempo
3 xícaras de dissimulação

Modo de preparo

numa sociedade qualquer, junte todos os ingredientes, bata no liquidificador, leve ao fogo alto do inferno e você verá tudo desandar.

marcelozorzeto
um poema é momento
cravado no tempo
a poesia é o nu
que se rompe em silêncios
eterno monumento
ao acaso que afronta
e beija
o rosto de flor

resto de Maio
no sal da manhã
desnudo-me

marcelozorzeto

domingo, 8 de fevereiro de 2015

o verde cravado no coração capital
concreto pulmão na cidade cimento
alegria com cheiro de relva molhada
viaduto e a tristeza que vai com o vento.

refletir pela metrópole que não reflete por si só


refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só


refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só

refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só

marcelozorzeto
Qualquer dia, eu subo na primeira palavra que passar pela minha frente e fujo pelas entrelinhas.

marcelozorzeto

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

na rua do amor

na rua do amor, a amargura sempre ultrapassa
deixando pra trás poeira e sorrisos sujos
permaneço saudade, sou todo outono
mas gosto do inverno ou verão com mar

na rua do amor ama-se bem pouco
não se olha o hoje, perdem-se nos amanhãs
sou todo farpas, pele em chamas
parto naturalmente em nuvens

na rua do amor, o amor desfalece
sobra você menos eu, mas éramos nós
quem é de verdade? a arte nua
a vida cruamente insana da cidade sobre mim?

na rua do amor faz-se prédio
só há sombras e remédio amargo
sou todo censura e embargo sonhos
preconceitos pré-históricos

na rua do amor não há rima perfeita
nem clima pra isso
estou só preso a um poste
pelo pescoço, a carne o osso e desespero

na rua do amor agora há tédio
não há drama nem gramado
flutuo... sou ponte, público concreto
coração passeio batimento e rotina

na rua do amor instituíram sentido único
contra-mão, contra a vontade
um cinema fechado, um filme enlatado
desbotado cartaz

na rua do amor moramos todos nós
mesmo adereço cinza-opaco
espero uma carta, me debruço na janela
todos passam sem envelope em mãos

na rua do amor moramos nós
e de amor não entendemos
chove no asfalto, o bueiro entupido
água que sobe, morro sempre afogado
na rua do amor.


marcelozorzeto