segunda-feira, 9 de março de 2015

meus tantos planos mortos
por inanição
ideias ressuscitadas, reencarnadas
em um corpo equivocado
meus sonhos todos tortos, remendados
a esparadrapo e contradição

meus prazeres pré-moldados, de gaveta,
reprimidos, nos gritos nunca extravasados
em silêncio com afetos invertidos

são as maravilhas da vida em contrário efeito
nesse anti-horário peito
sou mesmo um antiquado desbunde
com a conta bancária em profunda escuridão

marcelozorzeto

sexta-feira, 6 de março de 2015

a cura

o louco
a louca
a loucura
todos tem salvação
tem uma cura:

não se manter são
o louco
a louca
a loucura

marcelozorzeto

quarta-feira, 4 de março de 2015

calar-se

quero sair do meu próprio contexto
me rascunhar até que alguém me escreva

marcelozorzeto
queria ser poeta
me tornei um pateta

marcelozorzeto

suicídio

Não aguentava mais o mundo e num ato de desespero, abriu a janela de seu apartamento, olhou para baixo e lá se foram 17 andares. Não houve nenhuma chance pra seu computador.


marcelozorzeto
nascer tem me tomado um tempo quase infinito
um tempo que não tenho
falo de nascer de verdade, não da expulsão do paraíso
eu, enquanto (desa)feto do meu próprio parto
não conheço o mundo nem o vizinho da frente
invejo as pessoas que nascem,
que se dão à própria luz.



marcelozorzeto

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

receita da vovó

200 gr de auto-piedade
150 gr de solidão
1 lata de puro ódio
1/2 maço de compaixão
2 colheres de chá de esperança
1 quilo de amor ou desilusão
500 gr de coração congelado com o tempo
3 xícaras de dissimulação

Modo de preparo

numa sociedade qualquer, junte todos os ingredientes, bata no liquidificador, leve ao fogo alto do inferno e você verá tudo desandar.

marcelozorzeto
um poema é momento
cravado no tempo
a poesia é o nu
que se rompe em silêncios
eterno monumento
ao acaso que afronta
e beija
o rosto de flor

resto de Maio
no sal da manhã
desnudo-me

marcelozorzeto

domingo, 8 de fevereiro de 2015

o verde cravado no coração capital
concreto pulmão na cidade cimento
alegria com cheiro de relva molhada
viaduto e a tristeza que vai com o vento.

refletir pela metrópole que não reflete por si só


refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só


refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só

refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só

marcelozorzeto
Qualquer dia, eu subo na primeira palavra que passar pela minha frente e fujo pelas entrelinhas.

marcelozorzeto

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

na rua do amor

na rua do amor, a amargura sempre ultrapassa
deixando pra trás poeira e sorrisos sujos
permaneço saudade, sou todo outono
mas gosto do inverno ou verão com mar

na rua do amor ama-se bem pouco
não se olha o hoje, perdem-se nos amanhãs
sou todo farpas, pele em chamas
parto naturalmente em nuvens

na rua do amor, o amor desfalece
sobra você menos eu, mas éramos nós
quem é de verdade? a arte nua
a vida cruamente insana da cidade sobre mim?

na rua do amor faz-se prédio
só há sombras e remédio amargo
sou todo censura e embargo sonhos
preconceitos pré-históricos

na rua do amor não há rima perfeita
nem clima pra isso
estou só preso a um poste
pelo pescoço, a carne o osso e desespero

na rua do amor agora há tédio
não há drama nem gramado
flutuo... sou ponte, público concreto
coração passeio batimento e rotina

na rua do amor instituíram sentido único
contra-mão, contra a vontade
um cinema fechado, um filme enlatado
desbotado cartaz

na rua do amor moramos todos nós
mesmo adereço cinza-opaco
espero uma carta, me debruço na janela
todos passam sem envelope em mãos

na rua do amor moramos nós
e de amor não entendemos
chove no asfalto, o bueiro entupido
água que sobe, morro sempre afogado
na rua do amor.


marcelozorzeto

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

chuva em SP

sem a chuva seca
com a chuva inunda
e o mundo, imundo
o lixo flutua no homem
que se afoga no lixo.

marcelozorzeto

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Eu odeio o canto desse passarinho chamado helicóptero!
" Se não estiver precisando de qualquer coisa, me liga".
Um senhor embriagado na Praça da República
A crise no abastecimento de amor em São Paulo é de proporções catastróficas.

aos olhos que veem e não percebem

aos olhos que veem e não percebem, tudo é vento, não há vendaval, tampouco a brisa do mar se revela - aos olhos que veem e não percebem, tudo é hora, minuto ou segundo, só há o tempo das coisas e tudo escorre pelos dedos das mãos, sedentas de aprisionar - aos olhos que veem e não percebem, tudo é prosa, o viaduto, o chá e tudo que há sob(re) ele também e a poesia se esconde nas frestas do cotidiano, imperceptível - aos olhos que veem e não percebem, tudo é tudo e nada é quase nada, quando tudo e nada podem ser a morte e a vida numa simplicidade abissal.

aos olhos que veem e não percebem, tudo é concreto, nada é abstrato (odeia-se o abstrato, o impalpável), mas nem mesmo o arranha-céu, em sua forma de mar agitado de cimento e cinza, arranha a sensibilidade  - aos olhos que veem e não percebem, tudo é lixo, o saco preto do lixo, o homem preto no lixo, a criança preta no semáforo - os olhos que veem e não percebem sofrem de uma cegueira de alma e fazem sofrer tudo e todos os que habitam esse quase limbo, contra-mão do amor, inferno na rua paraíso.


marcelozorzeto

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Impressões de um dia de tarde

Ao fechar os olhos e me deixar conduzir por um desconhecido rumo ao desconhecido
me bate uma sensação conhecida, a sensação nítida de estar vivo. Conhecida, porém não muito acessada.

A tensão ao dar um salto no escuro te coloca em estado de alerta imediato. O risco é iminente. A vida também. O teatro também. Aliás a vida é teatro e vice-versa não nessa mesma ordem. A arte é vida. E o risco é o estopim pra todas as coisas não cotidianas.

O que nós queremos é comodidade, queremos conforto, queremos segurança. Todos se matam e se odeiam por esses três pilares de nossa atual sociedade. As pessoas se fecham em suas casas de muros altos pra não correrem risco. Mas não correr risco é estar morto. Apenas aqueles dentro de caixões estão fora de perigo. E se fechar em muros altos é uma espécie de morte.

E ao estar em risco, ao estar em estado de tensão, eu me coloco em escuta da vida. Das coisas mais simples. Do som dos pássaros. Dos Silêncios ao meu redor e em mim mesmo. Os sons do meu corpo, dos meus órgãos, do meu sangue que corre em mim  e consequentemente, no outro.

Assim como ver, olhar e reparar são coisas distintas, ouvir, escutar e perceber também os são. Não há relação verdadeira sem perceber os sons que saem do corpo alheio, não só da boca, mas do peito, das costas, dos olhos, dos pés.

Estar inteiro é uma espécie de estado de antena parabólica, que capta as ondas que vem dos que se relacionam contigo, seja no palco, seja na vida. Estar inteiro é uma questão de estar presente. Pois a vida só acontece no presente.

marcelozorzeto