quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A poesia não vem da alma, vem do suco gástrico.
o baço sabe muito mais de um poeta!


marcelozorzeto

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

receita da vovó

200 gr de auto-piedade
150 gr de solidão
1 lata de puro ódio
1/2 maço de compaixão
2 colheres de chá de esperança
1 quilo de amor ou desilusão
500 gr de coração congelado com o tempo
3 xícaras de dissimulação

Modo de preparo

numa sociedade qualquer, junte todos os ingredientes, bata no liquidificador, leve ao fogo alto do inferno e você verá tudo desandar.

marcelozorzeto
um poema é momento
cravado no tempo
a poesia é o nu
que se rompe em silêncios
eterno monumento
ao acaso que afronta
e beija
o rosto de flor

resto de Maio
no sal da manhã
desnudo-me

marcelozorzeto

domingo, 8 de fevereiro de 2015

o verde cravado no coração capital
concreto pulmão na cidade cimento
alegria com cheiro de relva molhada
viaduto e a tristeza que vai com o vento.

refletir pela metrópole que não reflete por si só


refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só


refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só

refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só
refletir pela metrópole que não reflete por si só

marcelozorzeto
Qualquer dia, eu subo na primeira palavra que passar pela minha frente e fujo pelas entrelinhas.

marcelozorzeto

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

na rua do amor

na rua do amor, a amargura sempre ultrapassa
deixando pra trás poeira e sorrisos sujos
permaneço saudade, sou todo outono
mas gosto do inverno ou verão com mar

na rua do amor ama-se bem pouco
não se olha o hoje, perdem-se nos amanhãs
sou todo farpas, pele em chamas
parto naturalmente em nuvens

na rua do amor, o amor desfalece
sobra você menos eu, mas éramos nós
quem é de verdade? a arte nua
a vida cruamente insana da cidade sobre mim?

na rua do amor faz-se prédio
só há sombras e remédio amargo
sou todo censura e embargo sonhos
preconceitos pré-históricos

na rua do amor não há rima perfeita
nem clima pra isso
estou só preso a um poste
pelo pescoço, a carne o osso e desespero

na rua do amor agora há tédio
não há drama nem gramado
flutuo... sou ponte, público concreto
coração passeio batimento e rotina

na rua do amor instituíram sentido único
contra-mão, contra a vontade
um cinema fechado, um filme enlatado
desbotado cartaz

na rua do amor moramos todos nós
mesmo adereço cinza-opaco
espero uma carta, me debruço na janela
todos passam sem envelope em mãos

na rua do amor moramos nós
e de amor não entendemos
chove no asfalto, o bueiro entupido
água que sobe, morro sempre afogado
na rua do amor.


marcelozorzeto

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

chuva em SP

sem a chuva seca
com a chuva inunda
e o mundo, imundo
o lixo flutua no homem
que se afoga no lixo.

marcelozorzeto

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Eu odeio o canto desse passarinho chamado helicóptero!
" Se não estiver precisando de qualquer coisa, me liga".
Um senhor embriagado na Praça da República
A crise no abastecimento de amor em São Paulo é de proporções catastróficas.

aos olhos que veem e não percebem

aos olhos que veem e não percebem, tudo é vento, não há vendaval, tampouco a brisa do mar se revela - aos olhos que veem e não percebem, tudo é hora, minuto ou segundo, só há o tempo das coisas e tudo escorre pelos dedos das mãos, sedentas de aprisionar - aos olhos que veem e não percebem, tudo é prosa, o viaduto, o chá e tudo que há sob(re) ele também e a poesia se esconde nas frestas do cotidiano, imperceptível - aos olhos que veem e não percebem, tudo é tudo e nada é quase nada, quando tudo e nada podem ser a morte e a vida numa simplicidade abissal.

aos olhos que veem e não percebem, tudo é concreto, nada é abstrato (odeia-se o abstrato, o impalpável), mas nem mesmo o arranha-céu, em sua forma de mar agitado de cimento e cinza, arranha a sensibilidade  - aos olhos que veem e não percebem, tudo é lixo, o saco preto do lixo, o homem preto no lixo, a criança preta no semáforo - os olhos que veem e não percebem sofrem de uma cegueira de alma e fazem sofrer tudo e todos os que habitam esse quase limbo, contra-mão do amor, inferno na rua paraíso.


marcelozorzeto

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Impressões de um dia de tarde

Ao fechar os olhos e me deixar conduzir por um desconhecido rumo ao desconhecido
me bate uma sensação conhecida, a sensação nítida de estar vivo. Conhecida, porém não muito acessada.

A tensão ao dar um salto no escuro te coloca em estado de alerta imediato. O risco é iminente. A vida também. O teatro também. Aliás a vida é teatro e vice-versa não nessa mesma ordem. A arte é vida. E o risco é o estopim pra todas as coisas não cotidianas.

O que nós queremos é comodidade, queremos conforto, queremos segurança. Todos se matam e se odeiam por esses três pilares de nossa atual sociedade. As pessoas se fecham em suas casas de muros altos pra não correrem risco. Mas não correr risco é estar morto. Apenas aqueles dentro de caixões estão fora de perigo. E se fechar em muros altos é uma espécie de morte.

E ao estar em risco, ao estar em estado de tensão, eu me coloco em escuta da vida. Das coisas mais simples. Do som dos pássaros. Dos Silêncios ao meu redor e em mim mesmo. Os sons do meu corpo, dos meus órgãos, do meu sangue que corre em mim  e consequentemente, no outro.

Assim como ver, olhar e reparar são coisas distintas, ouvir, escutar e perceber também os são. Não há relação verdadeira sem perceber os sons que saem do corpo alheio, não só da boca, mas do peito, das costas, dos olhos, dos pés.

Estar inteiro é uma espécie de estado de antena parabólica, que capta as ondas que vem dos que se relacionam contigo, seja no palco, seja na vida. Estar inteiro é uma questão de estar presente. Pois a vida só acontece no presente.

marcelozorzeto

terça-feira, 25 de novembro de 2014

abraço líquido

o abraço líquido se evapora no mesmo instante do toque
transforma qualquer um numa ilha cercada da solidão de corpos

abraço apenas de braços
que me afoga no vazio e transborda ainda no raso

o abraço líquido escorre
escorrega as mãos pelo ralo da pele
e se perde pela superfície das relações

o abraço líquido não esquenta o frio do fim da tarde
ao contrário, gela a espinha e congela a alma

o abraço líquido
é sem forma
é sem gosto
é sem cor

marcelozorzeto

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

pequenino poeminha em -ão

ela, céu aberto
eu, sem definição
ela, flor-perfume
eu, concreto e papelão
ela, calma chuva
eu, enchente e aflição

ela, sol à pino
eu, suor em exposição
ela, a noite quente
eu, insônia e TV (lisão)
ela, nuvem branca
eu, fumaça de avião
ela, a lua cheia
eu, um celular e a escuridão

ela, mar aberto
eu, um cais em solidão
ela, é só saudade
eu, cidade em construção
ela, um rio que corre
eu, meu corpo decomposto - pão
ela, vida plena
eu, sem querer, numa falta de atenção, entrei com o meu carro na contramão. por sorte não bati. Ufa!

marcelozorzeto

quadrinha caipira paulistana

quando eu morrê, quando eu morrê/ pur favô, mi joga nu Tietê
queru flutuá, e flutuá/ cada veiz mais longe du má
vão mi cumê, vão mi cumê/ assim comu vão comu ucê
num vai sobrá, num vai sobrá/ nenhuma istória pra contá


marcelozorzeto

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

poema e poesia

um poema é letra e palavra, 
poesia é sentimento e ruptura;
um poema é frase, é verso 
poesia é grito e escuridão;
um poema é forma, é estrofe, 
poesia é abismo e fissura;
um poema é língua e saliva,
poesia é peito aberto e silêncio
um poema é tinta e impressão,
poesia é lavra em vinho tinto.


marcelozorzeto

terça-feira, 4 de novembro de 2014

poema chato

eu sou o poema chato que ninguém quer ler
desinteressante
que se ignora
assim como é a vida para essas pessoas


marcelozorzeto

jardim da infância

o que faz uma alma sem habitar o corpo que lhe foi designado?
flutua no espaço?
caminha entre nós matéria?
veste-se de branco e assusta os já amedrontados?

seria a alma uma invenção do corpo pra dividir responsabilidades?
ou seria o corpo, uma invenção mal acabada, produto de uma carne-oficina
numa convenção de almas de um mundo além?
 
num mundo de almas
seria o corpo um adorno pras vaidades?
ou seríamos apenas robôs preenchidos com sangue?
recheados de uma massa que se desfaz aos poucos?

seria a consciência uma ilusão?
e a ilusão, o que seria?
e a música de Bach?
e o mar e o céu?

há um deus em nós
que se manifesta apenas quando nos esquecemos
nos esvaziamos

esse deus é o silêncio
o espaço
o tempo agora

não há morte nem vida


marcelozorzeto

segunda-feira, 3 de novembro de 2014