o que faz uma alma sem habitar o corpo que lhe foi designado?
flutua no espaço?
caminha entre nós matéria?
veste-se de branco e assusta os já amedrontados?
seria a alma uma invenção do corpo pra dividir responsabilidades?
ou seria o corpo, uma invenção mal acabada, produto de uma carne-oficina
numa convenção de almas de um mundo além?
num mundo de almas
seria o corpo um adorno pras vaidades?
ou seríamos apenas robôs preenchidos com sangue?
recheados de uma massa que se desfaz aos poucos?
seria a consciência uma ilusão?
e a ilusão, o que seria?
e a música de Bach?
e o mar e o céu?
há um deus em nós
que se manifesta apenas quando nos esquecemos
nos esvaziamos
esse deus é o silêncio
o espaço
o tempo agora
não há morte nem vida
marcelozorzeto
Santificados sejam nossos ofensores, assim como nós magoamos a quem nos tem perdoado.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
em vão
loteamento de chão
lama e alma
lamentação
ser um cão sem calma
quando se sente são
ação e palma
terra e pão
aversão
verso e refrão
mãe e orfão
calo na mão
falta água - fé - feijão
fome de fama
inflamação
marcelozorzeto
lama e alma
lamentação
ser um cão sem calma
quando se sente são
ação e palma
terra e pão
aversão
verso e refrão
mãe e orfão
calo na mão
falta água - fé - feijão
fome de fama
inflamação
marcelozorzeto
catarse
sem muita pressa pro sono, sempre a essa hora - a mesma hora enfadonha. essa vontade carnívora, esse cheiro de cólera e amores que se esquecem. sabores que podem enlouquecer. é quase sábado e a vida é eterna - tem éter no mundo todo. o momento que finge ser fulgás, é só efêmero às avessas. o ninho sem pássaros é tomado por fantasmas e sou eu que canto, pois também posso ser pássaro, posso ser grito e posso ser a morte nas minhas horas de voo. sempre é pouco e quero mais, quero tudo e o silêncio, quero o sol e a escuridão sem tédio. sei de tudo o que não sou e passo o meu tempo debruçado entre minutos quase eternos, e então me esqueço dele, o tempo, que mesmo sem mim continua. e me enterra. tento sem conseguir - um tanto sem aguentar - pintar meu coração de cor-de-outro, ele escorre e escorrega, derrete no gelo, é sórdido, é monocórdio, apático. ele quis me convencer, acredita? me convencer a acreditar na cândida fantasia que é essa minha sorte, mas o sonho me consome e já não tem mais volta.
marcelozorzeto
marcelozorzeto
noites na capital
a janela é coberta pela cortina estampada de uma madrugada sem estampa
é manhã e noite ao mesmo tempo, fria-gelada,
já tem som de passarinho acelerando, acordando pra namorar a cidade
tem canto e encanto em algum lugar da avenida. ainda é cedo eu sei -
quarto andar - no céu rosa de São Paulo
sopram os primeiros raios de sol para furar a neblina e extinguir a melancolia
a lua ainda perdida, não veio se despedir,
eu sei que ela ainda existe e se esconde do outro lado do mundo
o barulho da cidade acorda a manhã inteirinha
e a minha ressaca gira com o mundo todo.
o som das impressões que tenho sobre as coisas
é bem mais grave e profundo do que meus pensamentos anacrônicos.
e o relógio, sempre ele, tenta me castrar. o acuso de ser seco pra cacete.
tem trânsito na marginal, mas rio não tem mais, porra, matamos um rio
agora só um esgoto a céu aberto.
marcelozorzeto
é manhã e noite ao mesmo tempo, fria-gelada,
já tem som de passarinho acelerando, acordando pra namorar a cidade
tem canto e encanto em algum lugar da avenida. ainda é cedo eu sei -
quarto andar - no céu rosa de São Paulo
sopram os primeiros raios de sol para furar a neblina e extinguir a melancolia
a lua ainda perdida, não veio se despedir,
eu sei que ela ainda existe e se esconde do outro lado do mundo
o barulho da cidade acorda a manhã inteirinha
e a minha ressaca gira com o mundo todo.
o som das impressões que tenho sobre as coisas
é bem mais grave e profundo do que meus pensamentos anacrônicos.
e o relógio, sempre ele, tenta me castrar. o acuso de ser seco pra cacete.
tem trânsito na marginal, mas rio não tem mais, porra, matamos um rio
agora só um esgoto a céu aberto.
marcelozorzeto
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
#####
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
ciúmes
domingo, 12 de outubro de 2014
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
farmácia
chuva
quando chega a tarde
sinto falta da chuva
que molha a saudade
então o vento chega
a poeira traz o cisco
e o olho chove no rosto
memórias e lágrimas
marcelo zorzeto
sinto falta da chuva
que molha a saudade
então o vento chega
a poeira traz o cisco
e o olho chove no rosto
memórias e lágrimas
marcelo zorzeto
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
há
há os que preferem
a circunstância ao fato
a repulsa ao abraço
o desprezo à lágrima
a assepsia ao socorro
o dinheiro à solidão
o estômago ao coração
o nunca ao adeus
a certeza inútil ao risco franco
o atalho ao caminho do sol
o preconceito tosco ao beijo de língua
há os que pré-ferem-nos...
marcelozorzeto
a circunstância ao fato
a repulsa ao abraço
o desprezo à lágrima
a assepsia ao socorro
o dinheiro à solidão
o estômago ao coração
o nunca ao adeus
a certeza inútil ao risco franco
o atalho ao caminho do sol
o preconceito tosco ao beijo de língua
há os que pré-ferem-nos...
marcelozorzeto
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
A preguiça e a rede
era uma vez um poema de Drummond, um poema que quase ninguém nunca leu. era um poema muito longo, que dava muita preguiça na gente, assim como a preguiça de chegar até o fim deste texto neste exato momento. quase ninguém lê muita coisa por aqui mesmo, apenas fingimos ler, a maioria, assim como fingimos a amizade, os orgasmos, os amores, os horrores, as dores de dente, mas o ódio não, esse é verdadeiramente mortal, quase ninguém finge.
mas o poema está aí, solto na rede, ao contrário dos peixes, das tartarugas e do golfinho, que se prendem à rede que os extingue. o poema é muito longo, mas a preguiça dos nossos tempos é ainda maior. ele, o poema, desce pela página sem fim, infinitamente maçante, assim como é a vida real, a vida de todos nós, mas aqui não, aqui as coisas se resumem em festas purpurinadas, fotos sorridentes, fatos inventados, selfies de desespero.
a sociedade virtual execra os poemas longos, os esquece empoeirados no instante cibernético e almeja a pílula do ridículo instantâneo, a felicidade acena com uma simples piada obscena, sobre pretos, pobres, putas loiras e gays. a torcida vai ao delírio no estádio binário e aí vão dizer: nossa, hoje em dia não se pode contar uma simples piada? que piada!
marcelozorzeto
mas o poema está aí, solto na rede, ao contrário dos peixes, das tartarugas e do golfinho, que se prendem à rede que os extingue. o poema é muito longo, mas a preguiça dos nossos tempos é ainda maior. ele, o poema, desce pela página sem fim, infinitamente maçante, assim como é a vida real, a vida de todos nós, mas aqui não, aqui as coisas se resumem em festas purpurinadas, fotos sorridentes, fatos inventados, selfies de desespero.
a sociedade virtual execra os poemas longos, os esquece empoeirados no instante cibernético e almeja a pílula do ridículo instantâneo, a felicidade acena com uma simples piada obscena, sobre pretos, pobres, putas loiras e gays. a torcida vai ao delírio no estádio binário e aí vão dizer: nossa, hoje em dia não se pode contar uma simples piada? que piada!
marcelozorzeto
segunda-feira, 2 de junho de 2014
sem títuto no título
e essa raiva que me dá quando ouço ingenuidades absurdas
risos soltos, gargalhadas de ignorância
uma felicidade forçada
a alegria comprada na banca de jornal da praça da República
sonhos que se alimentam com migalhas de ilusão
que antes eram jogadas aos pombos
gente alegre com tudo ao seu redor
sons, cores, cheiros e chuva ácida
dentes amarelados, nicotinados de esperança vagamente rasa
rugas de preocupação disfarçadas com pó barato da 25
é preciso ser feliz por decreto! Alguém me disse
institucionalizar a sensação de dever cumprido
pra poder gritar no fim de um dia de conquistas mesquinhas
-EU VENCI!esfregado na cara do mundo
Com gosto de - EU MENTI!
e minto a todo o momento pra mim mesmo
é sempre um ótimo dia pra se ter um dia ruim
e eu só quero o privilégio do fracasso sem culpa
a risada escancarada dos defeitos meus
admitindo minha condição mortal
quero ter a dúvida da crase
eternamente em crise
acreditando ou não na utopia da esperança
e poder vestir minhas roupas desgastadas
sem me importar com olhares tortos de gente torta
estou limpo de alma, e isso é tudo
se tudo fosse
mas não é!
digo isso com toda a certeza de quem sabe do amanhã
marcelozorzeto
risos soltos, gargalhadas de ignorância
uma felicidade forçada
a alegria comprada na banca de jornal da praça da República
sonhos que se alimentam com migalhas de ilusão
que antes eram jogadas aos pombos
gente alegre com tudo ao seu redor
sons, cores, cheiros e chuva ácida
dentes amarelados, nicotinados de esperança vagamente rasa
rugas de preocupação disfarçadas com pó barato da 25
é preciso ser feliz por decreto! Alguém me disse
institucionalizar a sensação de dever cumprido
pra poder gritar no fim de um dia de conquistas mesquinhas
-EU VENCI!esfregado na cara do mundo
Com gosto de - EU MENTI!
e minto a todo o momento pra mim mesmo
é sempre um ótimo dia pra se ter um dia ruim
e eu só quero o privilégio do fracasso sem culpa
a risada escancarada dos defeitos meus
admitindo minha condição mortal
quero ter a dúvida da crase
eternamente em crise
acreditando ou não na utopia da esperança
e poder vestir minhas roupas desgastadas
sem me importar com olhares tortos de gente torta
estou limpo de alma, e isso é tudo
se tudo fosse
mas não é!
digo isso com toda a certeza de quem sabe do amanhã
marcelozorzeto
sexta-feira, 11 de abril de 2014
noite em são paulo
o céu azul-anel
é minha espera...
h[era]nça
prata é noite
negros olhos
choram o amanhecer
E os dias dublados me cansam a visão
nublado é o coração.
marcelozorzeto
é minha espera...
h[era]nça
prata é noite
negros olhos
choram o amanhecer
E os dias dublados me cansam a visão
nublado é o coração.
marcelozorzeto
terça-feira, 25 de março de 2014
impressões
o grito opaco da atriz me pareceu claro como a luz da lua
a dança, a loucura, à luz do luar. pílulas da sanidade geral
o poder como parte da nossa odisseia absurda
somos todos parte desse mito. Misto de gente e alienígena
o fogo que nos consome e faz com que estejamos todos por um segundo do fim.
Kabloommm.
marcelozorzeto
a dança, a loucura, à luz do luar. pílulas da sanidade geral
o poder como parte da nossa odisseia absurda
somos todos parte desse mito. Misto de gente e alienígena
o fogo que nos consome e faz com que estejamos todos por um segundo do fim.
Kabloommm.
espaços coordenados pra serem vazios. O nada.
"e quantos nessa história já não fizeram isso? O nada?"
o Poder. O ponderável.
o homem sondando o inabalável.
Guerra é paz? A way of life.
Inspiração soturna de fumaça e carne.
enquanto alma envelopada nesse extrato de pele,
estou salvo. Salvo?
é sonho. é tudo sonho e só isso. só isso.
quando me vejo levitando no palco por entre espectros
consigo entender o fim da minha jornada.
"sou eu e eu também."
salve teatro brasileiro. salve esperança humana.
salve amores, salve poesia, salve artistas e seus úteros disponíveis a
gestação do inacabado.
do improvável.
do nosso ser/estar em cada centímetro de espaço alienado.
salve.
"e quantos nessa história já não fizeram isso? O nada?"
o Poder. O ponderável.
o homem sondando o inabalável.
Guerra é paz? A way of life.
Inspiração soturna de fumaça e carne.
enquanto alma envelopada nesse extrato de pele,
estou salvo. Salvo?
é sonho. é tudo sonho e só isso. só isso.
quando me vejo levitando no palco por entre espectros
consigo entender o fim da minha jornada.
"sou eu e eu também."
salve teatro brasileiro. salve esperança humana.
salve amores, salve poesia, salve artistas e seus úteros disponíveis a
gestação do inacabado.
do improvável.
do nosso ser/estar em cada centímetro de espaço alienado.
salve.
marcelozorzeto
terça-feira, 18 de março de 2014
canção de ninar para os nossos filhos mortos
durma filho meu
mas nunca durma tranquilo
pois lá vem a lei do cão
que arrasta e sangra contente
o corpo da gente no piche do chão
durma filho meu
mas com o olho arregalado
pois nossa carne vale nada
como se gente não fosse gente
só quando preta e favelada
durma filho meu
e talvez não acorde nunca mais
pois meu amor virou pesadelo
e te juro, não é por falta de zelo
que não te verei nunca mais.
marcelozorzeto
mas nunca durma tranquilo
pois lá vem a lei do cão
que arrasta e sangra contente
o corpo da gente no piche do chão
durma filho meu
mas com o olho arregalado
pois nossa carne vale nada
como se gente não fosse gente
só quando preta e favelada
durma filho meu
e talvez não acorde nunca mais
pois meu amor virou pesadelo
e te juro, não é por falta de zelo
que não te verei nunca mais.
marcelozorzeto
sexta-feira, 7 de março de 2014
especulação
ao olhar pro passado
e ver tanta beleza e alegria
sinto que finjo a nostalgia dos aflitos
ao perceber tal equívoco
desfaz-se o pensamento
e me apego à teoria
que memórias são fantasmas
fatos distorcidos lá no fundo dos olhos
a vida não existe...
a alma sim
(a lágrima é alma líquida de todos nós)
não fossem fotos, vídeos
e cicatrizes pelo corpo
todo verbo no passado
seria mera especulação.
marcelozorzeto
e ver tanta beleza e alegria
sinto que finjo a nostalgia dos aflitos
ao perceber tal equívoco
desfaz-se o pensamento
e me apego à teoria
que memórias são fantasmas
fatos distorcidos lá no fundo dos olhos
a vida não existe...
a alma sim
(a lágrima é alma líquida de todos nós)
não fossem fotos, vídeos
e cicatrizes pelo corpo
todo verbo no passado
seria mera especulação.
marcelozorzeto
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
ocupação
eu canto
enquanto meio
deslocado no espaço
eu espaço
enquanto meio canto
deslocado
eu meio
enquanto deslocado
no espaço canto
eu deslocado
enquanto espaço
canto meio
eu enquanto deslocado
eu espaço meio
eu canto
meio deslocado
marcelozorzeto
enquanto meio
deslocado no espaço
eu espaço
enquanto meio canto
deslocado
eu meio
enquanto deslocado
no espaço canto
eu deslocado
enquanto espaço
canto meio
eu enquanto deslocado
eu espaço meio
eu canto
meio deslocado
marcelozorzeto
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