quinta-feira, 30 de outubro de 2014

noites na capital

a janela é coberta pela cortina estampada de uma madrugada sem estampa
é manhã e noite ao mesmo tempo, fria-gelada,
já tem som de passarinho acelerando, acordando pra namorar a cidade
tem canto e encanto em algum lugar da avenida. ainda é cedo eu sei -
quarto andar - no céu rosa de São Paulo
sopram os primeiros raios de sol para furar a neblina e extinguir a melancolia
a lua ainda perdida, não veio se despedir,
eu sei que ela ainda existe e se esconde do outro lado do mundo
o barulho da cidade acorda a manhã inteirinha
e a minha ressaca gira com o mundo todo.
o som das impressões que tenho sobre as coisas
é bem mais grave e profundo do que meus pensamentos anacrônicos.
e o relógio, sempre ele, tenta me castrar. o acuso de ser seco pra cacete.
tem trânsito na marginal, mas rio não tem mais, porra, matamos um rio
agora só um esgoto a céu aberto.

marcelozorzeto

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

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É tanto sonho que já nem durmo mais com medo de acordar
É tanto medo que já nem acordo mais com medo de sonhar

marcelozorzeto

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ciúmes

Ciúmes é a projeção no outro da falta que sentimos de nós mesmos.
Não é amor.
É aprisionamento.

marcelozorzeto

domingo, 12 de outubro de 2014

Abaixo o amor S/A
Abaixo o amor microempresa
Só me interessam amores sem fins lucrativos
e sentimentos sem etiquetas de preço.


marcelozorzeto
de alma louca, paciência pouca e cabeça oca.

marcelozorzeto

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

farmácia

onde fracos, frascos
sem remediar, há um remédio
ser humano em comprimido
drágeas de sentimentalismo
Alegria de balcão, tarja preta-cor
censura da tristeza.
a alegria como meta
doa a quem doar
(a quem doer)
aquém do ir
inertes em felicidade.


marcelozorzeto

chuva

quando chega a tarde
sinto falta da chuva
que molha a saudade

então o vento chega
a poeira traz o cisco
e o olho chove no rosto


memórias e lágrimas

marcelo zorzeto

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

há

há os que preferem
a circunstância ao fato
a repulsa ao abraço
o desprezo à lágrima
a assepsia ao socorro
o dinheiro à solidão
o estômago ao coração
o nunca ao adeus
a certeza inútil ao risco franco
o atalho ao caminho do sol
o preconceito tosco ao beijo de língua
há os que pré-ferem-nos...

marcelozorzeto

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A preguiça e a rede

era uma vez um poema de Drummond, um poema que quase ninguém nunca leu. era um poema muito longo, que dava muita preguiça na gente, assim como a preguiça de chegar até o fim deste texto neste exato momento. quase ninguém lê muita coisa por aqui mesmo, apenas fingimos ler, a maioria, assim como fingimos a amizade, os orgasmos, os amores, os horrores, as dores de dente, mas o ódio não, esse é verdadeiramente mortal, quase ninguém finge.

mas o poema está aí, solto na rede, ao contrário dos peixes, das tartarugas e do golfinho, que se prendem à rede que os extingue. o poema é muito longo, mas a preguiça dos nossos tempos é ainda maior. ele, o poema, desce pela página sem fim, infinitamente maçante, assim como é a vida real, a vida de todos nós, mas aqui não, aqui as coisas se resumem em festas purpurinadas, fotos sorridentes, fatos inventados, selfies de desespero.

a sociedade virtual execra os poemas longos, os esquece empoeirados no instante cibernético e almeja a pílula do ridículo instantâneo, a felicidade acena com uma simples piada obscena, sobre pretos, pobres, putas loiras e gays. a torcida vai ao delírio no estádio binário e aí vão dizer: nossa, hoje em dia não se pode contar uma simples piada? que piada!


marcelozorzeto

segunda-feira, 2 de junho de 2014

sem títuto no título

e essa raiva que me dá quando ouço ingenuidades absurdas
risos soltos, gargalhadas de ignorância
uma felicidade forçada
a alegria comprada na banca de jornal da praça da República
sonhos que se alimentam com migalhas de ilusão
que antes eram jogadas aos pombos

gente alegre com tudo ao seu redor
sons, cores, cheiros e chuva ácida
dentes amarelados, nicotinados de esperança vagamente rasa
rugas de preocupação disfarçadas com pó barato da 25

é preciso ser feliz por decreto! Alguém me disse
institucionalizar a sensação de dever cumprido
pra poder gritar no fim de um dia de conquistas mesquinhas
-EU VENCI!esfregado na cara do mundo
Com gosto de - EU MENTI!
e minto a todo o momento pra mim mesmo

é sempre um ótimo dia pra se ter um dia ruim
e eu só quero o privilégio do fracasso sem culpa
a risada escancarada dos defeitos meus
admitindo minha condição mortal 

quero ter a dúvida da crase
eternamente em crise
acreditando ou não na utopia da esperança
e poder vestir minhas roupas desgastadas
sem me importar com olhares tortos de gente torta
estou limpo de alma, e isso é tudo
se tudo fosse
mas não é!
digo isso com toda a certeza de quem sabe do amanhã

marcelozorzeto

sexta-feira, 11 de abril de 2014

noite em são paulo

o céu azul-anel
é minha espera...
h[era]nça
prata é noite
negros olhos
choram o amanhecer
E os dias dublados me cansam a visão
nublado é o coração.


marcelozorzeto

terça-feira, 25 de março de 2014

impressões

o grito opaco da atriz me pareceu claro como a luz da lua
a dança, a loucura, à luz do luar. pílulas da sanidade geral
o poder como parte da nossa odisseia absurda
somos todos parte desse mito. Misto de gente e alienígena
o fogo que nos consome e faz com que estejamos todos por um segundo do fim.
Kabloommm.

espaços coordenados pra serem vazios. O nada.
"e quantos nessa história já não fizeram isso? O nada?"
o Poder. O ponderável.
o homem sondando o inabalável.
Guerra é paz? A way of life.
Inspiração soturna de fumaça e carne.
enquanto alma envelopada nesse extrato de pele,
estou salvo. Salvo?
é sonho. é tudo sonho e só isso. só isso.
quando me vejo levitando no palco por entre espectros
consigo entender o fim da minha jornada.
"sou eu e eu também."
salve teatro brasileiro. salve esperança humana.
salve amores, salve poesia, salve artistas e seus úteros disponíveis a
gestação do inacabado.
do improvável.
do nosso ser/estar em cada centímetro de espaço alienado.
salve.

marcelozorzeto

terça-feira, 18 de março de 2014

canção de ninar para os nossos filhos mortos

durma filho meu
mas nunca durma tranquilo
pois lá vem a lei do cão
que arrasta e sangra contente
o corpo da gente no piche do chão

durma filho meu
mas com o olho arregalado
pois nossa carne vale nada
como se gente não fosse gente
só quando preta e favelada

durma filho meu
e talvez não acorde nunca mais
pois meu amor virou pesadelo
e te juro, não é por falta de zelo
que não te verei nunca mais.

marcelozorzeto

sexta-feira, 7 de março de 2014

especulação

ao olhar pro passado
e ver tanta beleza e alegria
sinto que finjo a nostalgia dos aflitos

ao perceber tal equívoco
desfaz-se o pensamento
e me apego à teoria

que memórias são fantasmas
fatos distorcidos lá no fundo dos olhos

a vida não existe...
a alma sim
(a lágrima é alma líquida de todos nós)

não fossem fotos, vídeos
e cicatrizes pelo corpo
todo verbo no passado
seria mera especulação.


marcelozorzeto

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

ocupação

eu canto
enquanto meio
deslocado no espaço

eu espaço
enquanto meio canto
deslocado

eu meio
enquanto deslocado
no espaço canto

eu deslocado
enquanto espaço
canto meio

eu enquanto deslocado
eu espaço meio
eu canto
meio deslocado

marcelozorzeto

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

#‎amordefacebook‬

Ao ver seu coração tagueado
curtiu com um sorriso sem jeito
declarações de amor inbox
almas compartilhadas
‪#‎amordefacebook‬


marcelozorzeto

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Impaciente

Ando tão sem paciência
pras cores da esperança
pra dançar conforme a dança
pra tentar me manter são

ando tão sem paciência
pra esperar o fim do dia
pra quem é só alegria
de viver de ilusão

ando tão sem paciência
pra comer comida quente
pra morrer tão de repente
ao entrar na contramão

ando tão sem paciência
pra entender minha agonia
e esperar que a água fria
põe abaixo meu tesão

ando tão sem paciência
pra costurar o corte
pra tentar achar o norte
pra me encher de grão em grão

ando tão sem paciência
pra urgência
pra ciência
indulgências
penitências
e também religião

ando tão sem paciência
pra vida
pra morte
pro tédio
pro medo
coragem
e quem tem opinião

pra existência
aparência
coerência
reticências
...
pra achar a solução

ando tão sem paciên...
não.


marcelozorzeto

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Sonhos

Noite passada, Deus veio até mim num sonho e disse: "Bicho, eu não tenho nada a ver com seu destino e felicidade, cada um cuida do seu. Se vira malandro." Ah, ele se parecia muito com o Raul Seixas.

domingo, 24 de novembro de 2013

amenidades

O que se acaba de repente, termina na pressa do tempo que se faz impiedoso, inquieto, ausente.
da sombra que fui ou que sou nada sobra e a beleza é só uma fantasia da idade que se vai - vaidade.

cada corpo que se despede leva também uma parte de mim, uma pitada de pele e duas de coração.
deve ser pra eu me encontrar no caminho de volta, que ficam os rastros, pois a saudade, por ventura, sempre vira cinzas. uma porção de "nãos" que insisto em colecionar, torna a despedida, mansidão, e a ausência, para quase todos, um favor quase sem igual.

marcelozorzeto