quarta-feira, 17 de abril de 2013

cidade sem graça


                                                                                                                             fonte: http://asorin.ru/index.php?l=

Eu me atrapalho tentando me acertar e olho pela janela de casa, busco alento, mas o céu é sempre vermelho, como se algo estranho estivesse para acontecer a cada momento corro pro travesseiro e choro por dentro as minhas lágrimas invisíveis são de pó e desespero a cidade dos amigos se foi, ficou há dias daqui neste canto desafinado a proporção de afeto é infinitamente menor vejo o amor diluído em baldes e mais baldes de pessoas que rastejam e tropeçam pelas ruas e que sequer verei duas vezes procuro a identidade perdida, como quem procura um parente perdido nas ruas de uma cidade estrangeira é um escândalo essa gente que passa sem graça por mim bom dia é quase insulto o concreto endurece as vistas e o coração sem falar da fumaça que apaga as estrelas, as montanhas e as minhas esperanças minha vida é agora um palco iluminado à luz de velas e o dourado do vestido já está mais que desbotado.

marcelozorzeto

segunda-feira, 8 de abril de 2013

deus-palavra

fonte desconhecida


A palavra pintada com a língua
Estampa o papel de vermelho
E escorre sonora e acrilicamente linhas a fio
A fogo

Respira o ar
Queima os alvéolos
Da caneta modesta, que menstrua em azul celeste
Assombro de significado
Toma de assalto os meus olhos!

Aborto da alma em frases avulsas
Abruptas
Um deus alfabeto de formas graficamente saborosas ou não.
Feto que nasce e não envelhece,
Cria coragem e desafia o intangível

Socorro imediato a minha ansiedade pueril
Bem nascida
Voa longe, atinge o coração como flecha
Mata aos poucos

Palavra que asfixia e comove
Me come do avesso e me cospe
Prato que se serve quente às vésperas do meu pensamento
Inimigo imediato com quem durmo e amanheço
Verbo insone
Infame
Ingrato
Mágoa e morte
Fé no invisível ser de letras

marcelozorzeto

sexta-feira, 15 de março de 2013

Quase sem poesia...

Onde está a poesia?
No mendigo sentado na calçado implorando por um prato de comida?
No herói que morre afogado na enchente, tentando salvar alguém que se esqueceu de se salvar?
No braço perdido na avenida, do trabalhador braçal, que com a cabeça no lugar, não precisava de um psicólogo?
Onde está a poesia na miséria?
Escondida atrás da criança no farol?
Onde está a poesia de se morrer na fila do SUS, a espera de um milagre, que nem era pra ser um milagre?
No homofóbico de plantão?
Nos racistas de bíblia na mão?
No jornal mentiroso da televisão?
Onde está a poesia?
Na beleza fabricada em linhas de montagem?
Nos sonhos implantados como chips na nossa cabeça?
Onde está a poesia?
No herói sentado na calçada implorando por um prato de comida?
No mendigo que morre afogado na enchente?
Na poesia perdida na avenida?
No motorista bêbado?
No medo?
Onde?
Poesia?
 
marcelozorzeto

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Este poema contou com a colaboração de Líceo Colombo, Nilmaer Souza, Tata Miele e Ricardo Lacerda.

Este poema contou com a colaboração de Líceo Colombo, Nilmaer Souza, Tata Miele e Ricardo Lacerda.

Respeito + admiração = amor?

Amor > Respeito + admiração?
Depende...
Respeito + admiração > amor?
Amizade?
saudade do amigo
Provavelmente...
amor+ admiração + repeito = saudade?
amor - admiração - respeito² = prisão?
quem sabe?
amizade + respeito + admiração . (afinidade) = amor + amizade ?
Segundooo...
Varia.
Ahh a saudade! (Ahh the nostalgia!)
Saudade = amor + respeito + admiração - presença?
amor? pq? a duvida nasce da falta... seja la do que for
o que eu queria dizer era: amor nasce da nao falta

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Resumo da semana

Nada me irrita mais do que a verdade, que não existe.
Nada me emociona mais do que a emoção, que não se pode controlar.
Nada me decepciona mais do que a tentativa de catequisar índios, com ou sem tribo.
Não quero moldes, nem molduras sem sentido na parede da sala.
Quero tela em branco
Quero Marlon Brando
uma taça de vinho tinto e meu amor do lado
com notas musicais no nome
Afinidade de transpor mundos
matar a miséria que me mata
despreocupei-me todo.


marcelozorzeto

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Passadear

O passado é um ônibus quebrado, do qual desço ou permaneço sentado olhando pela janela embaçada.

Já pro futuro o que nos falta mesmo é a estrada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

o parto - ao meu grande amigo e poeta André Kaires






















antes de ser um poema, cada palavra espera, adormecida num canto do instante
o momento do parto
de vir à tona
à lona
à luz dos teus olhos meus
e eis que ela, a palavra, nos vem,
nasce aos corações, pulsando as preces
gritando com força, a força que às vezes ela não tem
rasga o ar e traz consigo num rompante, a minha voz
a minha dor, as minhas lágrimas
que venha pois, enquanto poema,
pois assim será vida, nuvem, pássaro em liberdade
no entanto, se apenas verbo, perdido no tempo,
cuide-se
para que não seja apenas a gaiola que impede o voo
nós humanos somos poemas que dormem
o poeta é a ponte entre o instante e a vida
nós queremos o voo
mas temos medo da altura.
marcelozorzeto

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

o pio do polvo

O poeta fura o papel com a palavra afiada
A língua saliva sangue e endurece os corações
Mas a mão sem fuzil não é tão branda quanto parece
Aceno de pena e nanquim pode cegar

Corre corre corre
Que a Cuca vem pegar
Hoje não tem futebol
Tem revolução
Só há ingressos pra geral
Se for pra guerra, quero arquibancada


marcelozorzeto

música

Cadê a música? 
Onde está a Música? 
A vida sem música é um livro de Graciliano Ramos. 
É vida seca! 
É vela apagada.

marcelozorzeto

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

irreal


Com um punhado de fotografias e alguns “tapes” esquecidos na gaveta do armário da sala, revisito meu passado e me recuso a acreditar que ele, um dia, tenha de fato existido. Aniversários e casamentos, festas em preto e branco, encontros e abraços apertados que há muito tempo não se abraçam mais. Reuniões regadas a afeto rasgado, congeladas no piscar de uma Polaroid. Um mundo guardado em uma pequena caixa de sapatos e que se apaga com o tempo. Lentamente. Pacientemente. Impiedosamente. Assim como nós nos apagamos todos os dias.

A impressão do sonho é a ilusão de que tudo foi real. Mas nada é.

Vagas memórias vagas. Pedaços de bolo de papel, pessoas de papel, com olhares de papel.

O almoço de domingo, o jantar de sábado. A visita inesperada em qualquer dia era sempre bem vinda. Amigos que já devem ser amigos nas fotos de outros amigos.

As sobras que guardadas na geladeira duraram até o dia seguinte de um dia que não é mais, há tempos, e que não tenho certeza se um dia foi de verdade. Um sorriso meu que mal posso provar que foi realmente meu.

Fantasmas e garrafas de Fanta espalhadas sobre a mesa, e a sobremesa que o tempo deixou sem gosto. Nem estas mal traçadas linhas poderão um dia ter sido escritas por mim.

O tempo apaga os rastros, as pegadas e as impressões. As digitais se desgastam.  A pele se dissolve nas coisas que tocamos. É a vida se dissolvendo nas individualidades.

E eu que não consigo imaginar a diferença entre o que é sonho e o que é memória.

E se o amor não for abstrato?

Que tudo mais seja abstrato.

marcelo zorzeto

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sem horas

sobra-me tempo pra me perder
e tenho apenas o sol que há pouco se pôs  
estampado na minha pele em vermelho
perdido em permanência 

senhores sem horas de sobra correm pela multidão apressados
alegres, preocupados
seja noite ou dia o atropelo é a tragédia aguardada em minutos
ele nos consome
nos come
devora-nos

à solução que me falta
salto à sombra do meu esquecimento
do excesso de soberba e dúvida
um mergulho em mim de perder o fôlego
olhos sem brilho ao norte do coração pulsante
e uma canção com a melodia que escorre nos olhos de quem a entoa
eu já não canto mais

sobram-me carícias duras, carícias rochosas
ausenta-se o pranto na minha face sempre mórbida
e são olhos novamente foscos os que me espreitam
duvido do tempo que verdadeiramente se perde de mim
que também duvida do sentido do quando
num breve amparo do agora
do nunca.

marcelozorzeto