quarta-feira, 13 de julho de 2011

meu filho, você não merece nada. por ELIANE BRUM

Bem, a finalidade deste blog é discutir idéias, pensar, filosofar etc, ou nenhuma das anteriores. Publico aqui e agora um texto que me chegou através de email enviado por minha querida esposa, Camila Bianchi, e digo que ao lê-lo fiquei impressionado com a clareza e a a pontualidade dos fatos nele apontados. Há muito tempo tenho observado e ouvido de pessoas envolvidas no fato em questão, lamúrias, lamentos e frustrações, e esse artigo genial veio ao encontro e de encontro com essa situação, um tanto quanto comum nos dias de agora. Leiam e releiam, e se precisarem leiam novamente. E depois pense se esse não é você.


A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.


Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista.
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html

quinta-feira, 30 de junho de 2011

sampa



São Paulo, 
                  a cidade que eu amo é cinza

A cidade que eu amo, 
                                   desaparece no céu invisivelmente azul

Do prédio da Augusta, 
                                     a vida não dorme nem acorda

O sonho feliz de cidade é pesadelo cotidiano de hipocrisia

No bom retiro da liberdade, 
                                           os mendigos presos à miséria craqueando as ilusões

Putas de salto, 
                       minissaias do acaso da vida fácil nada fácil

Cosmopolitamente racial,
                                         os gêneros se misturam como água e óleo

E veloz, 
             a Sampa do meu coração se dissolve em prantos fiéis

Onde poluição e emoção confundem meus olhos e choro

E mesmo assim, 
                          nada acontece no meu coração.

marcelozorzeto

terça-feira, 21 de junho de 2011

queridas amigas


ando tão amargo (90% cacau) que nem tenho ouvido mais as cigarras escandalosas que cantam para a morte. no meio da rua, o asfalto quente esfria durante a pausa da vida urbana desregrada. parece que a vida é maior daqui da janela de casa, onde vejo tudo do alto.

pessoas que não passam, cachorros que não latem, a grama que não existe e por isso insiste em não crescer. nada acontece ao mesmo tempo em que tudo pode explodir na sua cara. uma tragédia anunciada e inevitável. um vento morno corta o silêncio constrangedor e interrompe o ciclo tedioso dos dias insossos ao derrubar o vaso de plantas já mortas na véspera. ontem o dia amanheceu e já era quase noite, o sol, de porre, deve ter perdido a hora e confundido os ponteiros do meu relógio.

se houvesse uma máquina do tempo eu a adiantaria até o momento em que eu pudesse terminar este relato. e essa cabeça que não para! porém, o asfalto ainda quente, de um sol desnorteado, queima os pés desavisados, e assim tudo se dá, tudo se resolve. paro e penso no que poderia ser se já não fosse, perco a esperança, perco o sono e só não perco essa estúpida necessidade de parecer o que não sou. e quem é que perde?

então escrevo, e isso me tranquiliza, me faz poder acreditar mais no invisível, me faz poder ouvir as cigarras escandalosas que parecem gritar por meu nome sem cessar. ah, minhas amigas cigarras, não morram por mim! não morram por ninguém! apenas cantem, se esse for o acaso.

marcelozorzeto

terça-feira, 17 de maio de 2011

nós todos

a gente corre
a gente luta
a gente chora

a gente chuta o balde
tantas vezes vazio
da água do rio que também corre
mas não volta mais

a gente geme
a gente sofre
a gente mente
a gente come o pão que o diabo amassou
com manteiga ou não
engole seco
goela abaixo
sem tempo para o perdão

a gente odeia
a gente ama
a gente mama
a gente foge da raia
e no final se abraça
num sorriso sem graça
em um dia qualquer de verão

a gente dorme
a gente mia
a gente explode
a gente espia pelo buraco da fechadura
e vê na TV
o monstro que devora a criança na rua, faminta e nua

a gente some
a gente soma
a gente suga
entra em coma e acha que está tudo bem
mas não está

a gente planta
a gente colhe
a gente janta
a gente tolhe os nossos sonhos
esse moinho de vento a triturar
as tardes  de verão com cheiro de fritura

a gente só quer ser feliz
só quer ser feliz
só quer ser
é o que se diz
feliz.

marcelozorzeto

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ao meu amor...

















o teu amor é como o mar
me acolhe
me acalma
me banha
me salga
me acanha às vezes
me faz perder o medo de me afogar

marcelozorzeto

domingo, 1 de maio de 2011

fugaz

procuro onde estou
o que eu sou
o que eu espero
o que eu mais venero

às vezes finjo que me encanto 
às vezes tanto
às vezes tonto
desencontros...

como uma pedra escondida no riacho
pelo limo verde que a encobre 
a vida é também assim
escorregadia
há de se tentar permanecer em pé

o fim inevitável do tempo que corre
todos os dias em minha direção
é como um gato no telhado que se assusta e cai
sempre virado pro mesmo lado.

marcelozorzeto

sábado, 30 de abril de 2011

soneto desconfigurado

se é a ultima vez que te vejo
não quero mais teu beijo de saliva ruim
se é a ultima vez que te encaro
que fique muito claro 
a porta da rua é o que mais importa agora 
                                      [aberta ou não]

se é a ultima vez que te sinto, solta meu braço
pinto a esmo, flores sem graça

se é a ultima vez que te ouço
larga do meu bolso
devolve minha alma

esta será a ultima vez deste encanto
vamos, enxuga teu pranto e vai pro outro lado da rua
que tua nudez já não me comove
e me deixa morrer em paz

marcelozorzeto

terça-feira, 26 de abril de 2011

não ser

ser poeta e ao mesmo tempo não ser nada

verdade ou obsessão barata?

ao transpor a linha do imaginário

dá-se um passo para o infinito

e muito mais do que isso 

dá-se um passo sem volta

num imenso vazio da liberdade













marcelozorzeto

domingo, 24 de abril de 2011

abril despedaçado

À mesa exposta, a fratura
          as dores postas da fartura
                   atira a gosto o menino doente (escola)
tira gosto doentio e covarde


tiro
        Agosto
                      entes em alarde


amigos tão verdadeiros quanto deus

lágrimas que flutuam no tempo
               sem tempo pra cair no espaço
sem espaço para molhar os olhos
              que agora fechados não dizem mais
nem menos
terra
             sal
                        e cinzas
                                                             cabelo e osso
                              calabouço final
cala-se a boca afinal

marcelozorzeto

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Adeus dará



















a cada minuto que passa
sinto-me menos só
menos sol
menos ar
menos são
e o tempo me escorrega pelas mãos
a água que fica no fundo da poça sempre seca
sem nenhuma dúvida

sou exatamente aquilo que acho que não sou
e negaria tudo se fosse capaz
deito-me lentamente para não sentir esse enjoo que finjo não sentir
os meus pés descalços tocam o chão quente da estação
ao longe, pássaros cantam e a nuvem branca, engraçada brinca de desenhar no céu
a minha vida inteira passa num piscar de olhos

sei que quando estiver próximo de estar completo, partirei
nós humanos sempre partimos quando estamos próximos do completo
mas nem todos, nem sempre, quase nunca
as pessoas nascem
crescem
aparecem nas nossas vidas
e depois partem
aí deixam uma saudade (algumas).


marcelozorzeto

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Colherzinhas



baseado na crônica de Moacyr Scliar.

roteiro, direção, fotografia e edição
andré aoki

produção, arte e assistência de direção
renata oshiro

assistente de fotografia e gaffer
eric ueite

atores
giovana galindo
marcelo zorzeto

segunda-feira, 11 de abril de 2011

POeMA De PEdrA

a palavra de aço dura
   é dura como a vingança alheia é fria
         respinga sobre o papel, a tinta canalha
              que escreve e borra quando acha melhor
                     poema de pedra que desce morro abaixo

e esmaga quem mora nas entrelinhas

sem dó nem piedade

sem o pavor de ser piegas

poema anfíbio, batráquio, que pula sobre a

cadeira

e se torna notável no tapete azul


                                                          a palavra dura, 
                                                      de aço, 
                                                  de osso, 
                                             de uníssono grito.
                                         poema de pedra.

marcelozorzeto

domingo, 10 de abril de 2011

eu gosto do gosto

Eu 
gosto
do
gosto
amargo
da
ponta
da
língua
lambendo
o
pecado
tocando
a
ferida
expondo
a
loucura
sem
culpa
nem
hora
para
acabar
tem
gosto
de
samba
carnaval
na
avenida
dos
prazeres

marcelozorzeto

quinta-feira, 7 de abril de 2011

a flor da morte

sempre que te encontro, me perco 
na roda viva do tempo 
que gira em minha direção

sentimento intangível
que corta fundo no peito, mas não sangra
e a carne exposta derramada sobre a pele
é como bálsamo em gotas de urgência

nas noites quentes com sol a pino
um suor frio de pernas comovidas me congela 

sempre que me perco, basta que eu te encontre
perdida na esquina, minha fiel cafetina 
e sigo na direção da sua eterna canção
cantando o refrão do seu corpo, 
que quase já sei de cor

labirinto viciado que alicia os meus desejos
sexo que corta a minha boca em fatias largas
sangue quente a jorrar nos teus seios mórbidos

fecunda em ti meu verdadeiro ser ainda adoecido
pois tenho a certeza de serpente encurralada 
que envenena e mata
mas não perde a razão.

marcelozorzeto

domingo, 3 de abril de 2011

caber em si mesmo

é possível não caber em si mesmo
possível é fundamental
ser cheio e transbordar como a lua em noite clara
transbordar em serenatas

romper as comportas
e deixar as águas fluírem pro mar

nunca aparo as rebarbas da minha alma
eu as reservo pros dias de frio e solidão
é que as sobras nunca são sobras quando se tem fome

e minha fome é caleidoscópica
cores contrárias em direções coloridas

de sexo
arte
e amor

marcelozorzeto