terça-feira, 9 de dezembro de 2014

aos olhos que veem e não percebem

aos olhos que veem e não percebem, tudo é vento, não há vendaval, tampouco a brisa do mar se revela - aos olhos que veem e não percebem, tudo é hora, minuto ou segundo, só há o tempo das coisas e tudo escorre pelos dedos das mãos, sedentas de aprisionar - aos olhos que veem e não percebem, tudo é prosa, o viaduto, o chá e tudo que há sob(re) ele também e a poesia se esconde nas frestas do cotidiano, imperceptível - aos olhos que veem e não percebem, tudo é tudo e nada é quase nada, quando tudo e nada podem ser a morte e a vida numa simplicidade abissal.

aos olhos que veem e não percebem, tudo é concreto, nada é abstrato (odeia-se o abstrato, o impalpável), mas nem mesmo o arranha-céu, em sua forma de mar agitado de cimento e cinza, arranha a sensibilidade  - aos olhos que veem e não percebem, tudo é lixo, o saco preto do lixo, o homem preto no lixo, a criança preta no semáforo - os olhos que veem e não percebem sofrem de uma cegueira de alma e fazem sofrer tudo e todos os que habitam esse quase limbo, contra-mão do amor, inferno na rua paraíso.


marcelozorzeto

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