Uma garrafa de whisky, meio maço de cigarros e uma cartela de calmante depois, esse foi o tempo necessário que eu levei pra dormir na noite anterior. O silêncio ensurdecedor do meu quarto, misturado à necessidade tamanha de achar uma solução inusitada para meus problemas existenciais, havia transformado as minhas noites em campos de concentração que se confundiam também com o meu dia inteiro.
Lembrava vagamente dos rostos de meus velhos pais, que há muito tempo haviam partido. Sem amarras nesse mundo, sem alguém pra poder compartilhar meus medos, minhas angústias. Confusamente dona de mim, me sentia nascida às avessas, algo que se perdia aos poucos buscando alguma luz perdida no fim de algum túnel também perdido no tempo.
A vontade de gritar era estranhamente sutil e avassaladora. A voz rouca dos cigarros e remédios, agora era pouco usada, lembrando que as paredes já não me respondiam com tanta freqüência. No apartamento ao lado, pessoas conversam, e riem e choram, eu tenho certeza disso, há vida no mundo ao meu lado próximo. Mas ao pensar na chegada da noite, me desespero. Não há fantasmas nem espíritos arrastando correntes. Apenas minha alma estúpida ainda presa a meu corpo neste meu apartamento escuro e úmido.
É estranho me ver morta, mesmo quando se sabe que se está viva. A certeza vinha de minha respiração quente que embaçava o espelho do banheiro, enquanto nos olhávamos em aparente desencanto. Algumas pessoas demoram pra nascer, outras nunca nascem, eu achava. Algumas pessoas têm mais sorte que outras, eu pensava. E seguia respirando sofregamente, olhando para cada canto empoeirado do quarto. O gosto pelo fúnebre me é bem peculiar, aliás, a morte era bem mais palpável e plausível e me caia como um vestido feito sob encomenda, eu achava.
Às vezes um copo de álcool faz toda a diferença entre o ser e o estar, e eu sabia disso. Minha embriaguez diária não era nem um tipo de fuga da realidade dura e mesquinha fantasiada pelas pessoas. Era apenas um estado sublime de existência. Qual a diferença entre entorpecer-se e encarar a vida enfadonha de todos nós? Qual a diferença entre viver uma mentira e morrer em busca de uma verdade que nem se sabe se realmente há?
O sol da manhã mostra seus primeiros reflexos na cortina fechada. Meu coração dispara por alguns instantes, a provável manhã ainda me causa palpitações improváveis. O cheiro forte de café que é exalado pela lanchonete do outro lado da rua, o barulho dos carros que despertam e saem para trabalhar com seus donos escravizados, o canto absurdo dos pássaros nas árvores da calçada. A famosa vida, como a maioria de nós conhecemos, acorda para um novo pesadelo. E eu desperto para a vida me abrigando em minha cama macia, trazendo comigo as experiências das noites em claro, das garrafas de álcool, dos maços de cigarro e das cartelas de remédio. Enquanto as pessoas adormecem para suas supostas realidades repletas de sonhos inalcançáveis, eu descanso acordada a sonhar com o dia em que irei nascer verdadeiramente para o mundo. Somos verdadeiros seres nascidos aos poucos e pela metade, eu acho.
marcelozorzeto
marcelozorzeto

Um comentário:
Muuuuito bom.... eu acho!
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