terça-feira, 21 de junho de 2011

queridas amigas


ando tão amargo (90% cacau) que nem tenho ouvido mais as cigarras escandalosas que cantam para a morte. no meio da rua, o asfalto quente esfria durante a pausa da vida urbana desregrada. parece que a vida é maior daqui da janela de casa, onde vejo tudo do alto.

pessoas que não passam, cachorros que não latem, a grama que não existe e por isso insiste em não crescer. nada acontece ao mesmo tempo em que tudo pode explodir na sua cara. uma tragédia anunciada e inevitável. um vento morno corta o silêncio constrangedor e interrompe o ciclo tedioso dos dias insossos ao derrubar o vaso de plantas já mortas na véspera. ontem o dia amanheceu e já era quase noite, o sol, de porre, deve ter perdido a hora e confundido os ponteiros do meu relógio.

se houvesse uma máquina do tempo eu a adiantaria até o momento em que eu pudesse terminar este relato. e essa cabeça que não para! porém, o asfalto ainda quente, de um sol desnorteado, queima os pés desavisados, e assim tudo se dá, tudo se resolve. paro e penso no que poderia ser se já não fosse, perco a esperança, perco o sono e só não perco essa estúpida necessidade de parecer o que não sou. e quem é que perde?

então escrevo, e isso me tranquiliza, me faz poder acreditar mais no invisível, me faz poder ouvir as cigarras escandalosas que parecem gritar por meu nome sem cessar. ah, minhas amigas cigarras, não morram por mim! não morram por ninguém! apenas cantem, se esse for o acaso.

marcelozorzeto

3 comentários:

Fabio Lombardi disse...

Aqui, onde o sol nunca se põe, ponho meus sonhos na mesma sacola que levo de um lado pro outro. Tentativa de talvez ser a única conexão com uma terra que nao me parece mais mInha. Nem a terra, nem o céu. Nem a mente que sempre mente pro coração desnorteado dizendo que esse mesmo asfalto ou imensidão azul por onde ando nao deixam marcas que já nao posso mais apagar. Ou esquecer. Que as cigarras gritem também o meu nome.

Camila disse...

Às vezes chego a pensar que nossas verdadeiras amizades são aquelas que, na maior parte do tempo, a gente nem se importa muito quando estão por perto. Aí vem o tempo e mostra que é tudo bem ao contrário. Mas as cigarras continuam sempre lá...

Marcelo Zorzeto disse...

Acho que vou criar um blog para postar os comentários dos meus visitantes, que são sempre sensacionais...